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terça-feira, 27 de março de 2012

Brasil em Ascensão.

A nova influência do Brasil
Brazil's New Swagger (versão original)

A potência em ascensão da América do Sul está se afirmando, mas um grande poder traz sempre grandes responsabilidades

DAVID ROTHKOPF, FOREIGN POLICY, É ANALISTA DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

Enquanto os Estados Unidos avançam de maneira hesitante para aceitar a nova realidade multipolar do mundo, dando um passo atrás para cada passo à frente, fazendo uma violação de soberania excepcional para cada esforço de colaboração em lugares como a Líbia, outros países estão trabalhando ativamente para estabelecer novas regras para todas as nações seguirem na nova era.

Entre os que estão na linha de frente desse esforço, contam-se a presidente brasileira, Dilma Rousseff, e seu respeitadíssimo chanceler, Antonio Patriota.

O desafio que Dilma e Patriota enfrentam como servidores públicos é assustador. Cada um deles segue as pegadas de um formidável antecessor.

O desafio de Dilma é, admitidamente, muito maior e, de fato, para muitos, parece quase insuperável. Ela sucede a dois presidentes que foram, provavelmente, os mais importantes da história moderna de seu país, Fernando Henrique Cardoso, a quem é creditada a estabilização da economia brasileira após anos de volatilidade, e o antecessor imediato dela, Luiz Inácio Lula da Silva, não somente seu mentor, mas um integrante do pequeno punhado dos líderes mundiais mais importantes da última década.

Já o antecessor de Patriota, Celso Amorim, foi também formidável, extremamente influente, e uma presença constante no cenário brasileiro e internacional. O desafios eram grandes para todo o governo de Dilma.

No entanto, após um ano no cargo, e apesar de enfrentar grandes desafios domésticos e internacionais, a presidente já alcançou um índice de popularidade superior ao de Lula num ponto equiparável de seu mandato.

E Patriota está dando continuidade com calma, e aos olhos de observadores próximos, com grande habilidade, ao trabalho desbravador de Amorim para estabelecer o Brasil como um líder entre as grandes potencias mundiais.

"Temos uma grande vantagem", observa Patriota. "Não temos inimigos reais, nem lutas em nossas fronteiras, nem grandes rivais históricos ou contemporâneos entre as fileiras das potências mais importantes... e temos laços duradouros com muitas nações desenvolvidas e emergentes do mundo." Essa é uma condição que não é desfrutada por nenhum dos outros Bric - China, Índia e Rússia - nem, aliás, por alguma grande potência tradicional do mundo. Essa posição incomum é fortalecida ainda mais pelo fato de o Brasil não estar investindo tão pesadamente quanto as outras potências ascendentes em capacidade militar. Aliás, como observou Tom Shannon, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, o país é um dos poucos a efetivamente apostar seu futuro na aplicação sábia do chamado "poder brando" - diplomacia, alavancagem econômica, interesses comuns.

Não é por coincidência, aliás, que, em áreas que vão das mudanças climáticas ao comércio, da não proliferação nuclear ao desenvolvimento, o Brasil, sob o comando de Lula e Amorim e de Dilma e Patriota, vem ganhando força ao traduzir o crescimento consistente em casa e a diplomacia ativa no exterior em redes internacionais efetivas.

Mas o governo de Dilma também está rompendo com o passado. Enquanto Cardoso e Lula alcançaram a grandeza enfrentando e resolvendo alguns dos problemas mais ruinosos do passado brasileiro, da estabilização da economia ao enfrentamento da desigualdade social, Dilma, sem deixar de reconhecer o trabalho que resta a ser feito, concentrou sua atenção também na criação de oportunidades e num claro caminho para o futuro do Brasil. De seu foco em educação a seu compromisso com ciência e tecnologia passando por programas inovadores como "Ciência Sem Fronteiras", ela está fazendo algo que nenhum líder latino-americano fez anteriormente, mas que se mostrou uma fórmula aprovada na Ásia.

Está comprometida em transformar o Brasil de economia com base em recursos naturais e, portanto, dependente (o que significa dizer, vulnerável) em uma que conta mais para o crescimento futuro com as indústrias de valor agregado, a pesquisa e desenvolvimento, e a formação de mais cientistas e engenheiros.

Com base nisso, Patriota também está olhando para frente. Ele está indo além da era da política externa brasileira em que era inovador fazer o país olhar para fora de sua região e jogar um papel ativo nos assuntos globais, para um período, num futuro não muito distante, em que o Brasil, na condição de país com uma das cinco maiores economias e populações do mundo, de líder mundial em agronegócios e energia, assumirá sem hesitação que merece seu lugar à mesa.

Patriota esteve em Nova York por achar que um dos primeiros experimentos dessa era, a intervenção na Líbia sancionada pela ONU, saiu dos trilhos quando a missão autorizada pelas Nações Unidas de proteger o povo líbio foi deixada de lado pelas forças internacionais que intervieram tornando-se antes uma missão de mudança de regime. Ele não era nenhum admirador de Muamar Kadafi, que fique claro. Mas tem o sentimento inabalável de que, para a comunidade internacional operar de fato unida, ela precisa fazê-lo sob regras não só coletivamente estabelecidas, mas também coletivamente honradas.

Essa atitude provoca irritações, com certeza, em especial em países como os Estados Unidos, que estão acostumados a operar segundo suas próprias regras. Essa é uma razão por que a iniciativa turco-brasileira de 2010 para costurar um acordo para desarmar a crise nuclear iraniana foi tão irritante para Washington. A medida, por mais ingênua que tenha parecido para alguns, antecipou o início de uma era em que potências regionais e emergentes, como Turquia com Síria ou China com Irã, são fundamentais para se alcançar os objetivos da comunidade internacional.

Patriota reconhece que os Estados Unidos, sob o comando de Barack Obama, e outras potências estabelecidas avançaram bastante para se adaptar a essa nova realidade. Dito isso, ele gostaria de ver Obama avançar mais. Por exemplo, os brasileiros estão entre as potências emergentes que pressionam por reformas reais na maneira como as instituições internacionais são conduzidas. Eles acham que a ordem pós-2.ª Guerra refletida na estrutura de poder do Conselho de Segurança da ONU e na concessão automática da liderança do Banco Mundial a um americano está obsoleta e que já é hora de alguma coisa que reflita as realidades do século 21 e seja mais consistente com os princípios democráticos sobre os quais essas instituições foram estabelecidas.

É difícil discordar dos brasileiros ou de outros sobre esses pontos. E a inconsistência mostrada pelo governo Obama nessa frente - oferecendo apoio a uma participação permanente indiana, mas não brasileira, no Conselho de Segurança, em certo momento parecendo simpático a uma abertura do principal cargo no Banco Mundial a um não americano, mais recentemente parecendo recuar dessa ideia - tem sido irritante e, eu diria, irrefletida.

O que Dilma e Patriota estão tentando fazer na frente internacional é, de fato, tão revolucionário quanto o que seus antecessores fizeram.

Eles compreendem que um multilateralismo bem-sucedido agora requer não só maior número de países, mas abertura a uma multidão de ideias.

Durante a Guerra Fria, o debate era binário: soviéticos ou americanos.

Em sua esteira houve a breve ilusão de que havíamos entrado num momento de fim da História em que uma filosofia de mercados e democracia liderada pelo Consenso de Washington adquiria uma espécie de status de monopólio no mercado das ideias. Mas depois vieram as tragédias gêmeas, frutos da arrogância, do Iraque e da crise financeira de 2008, a simultânea ascensão de novas potências como Brasil, China, Índia e outros - e entramos em uma nova era. Em meu livro, Power, Inc., me refiro ao lado econômico dessa era como um período de capitalismos concorrentes. Mas ele é também um período de filosofias políticas concorrentes sobre o papel, tanto do Estado, como das instituições internacionais. Nesse mundo, não só os Estados Unidos são apenas uma voz, mas são também uma voz enfraquecida que em cada evento será ouvida como a mera visão de menos de 5% da população do planeta. Ao mesmo tempo, outros terão de preencher o vazio criado pelo redimensionamento da influência americana. O Brasil está tentando fazê-lo e, é preciso notar, de uma maneira consideravelmente mais construtiva que a evidenciada por China e Rússia em seu desempenho pusilânime com respeito à Síria no Conselho de Segurança. Dito isso, as potências emergentes, o Brasil entre elas, precisam reconhecer que, neste novo mundo, se pretendem jogar papéis maiores, elas também terão de fazer escolhas duras e não simplesmente desconsiderar as questões complexas como problemas alheios ou fora do alcance do sistema internacional em evolução. Elas vão ter de aceitar cada vez mais que se as injustiças não forem contidas, os custos resultantes serão largados em suas portas.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Correio Braziliense - Crise na Itália.

Antes mesmo de assumir, novo premiê da Itália desagrada o mercado

Sílvio Ribas

Publicação: 15/11/2011

Um dia após ser designado para formar o novo governo da Itália em razão da renúncia de Silvio Berlusconi, o economista e ex-comissário europeu Mario Monti começou ontem a montar sua equipe enquanto os mercados reagiam com ceticismo a seu nome. Em seu teste inaugural, o líder indicado viu as bolsas europeias fecharem em queda, abaladas em parte pela emissão dos títulos da elevada dívida pública italiana (1,9 trilhão de euros). No primeiro leilão após a escolha de Monti para liderar o combate à crise fiscal, o país pagou ontem juro recorde de 6,29% para vender bônus de cinco anos.

A oferta levantou 3 bilhões de euros, teto da meta, mas com o maior custo desde 1997. No leilão de outubro, os rendimentos foram de 5,32%, quase um ponto percentual a menos. As maiores baixas nas bolsas da Zona do Euro foram registradas em Madri (2,15%), Milão (1,99%) e Paris (1,28%), que também sentiram o impacto do aumento da expectativa de recessão no continente. O pregão de Nova York caiu 0,61%; e o de São Paulo, 0,49%, aos 58.258 pontos. O dólar subiu 1,38%, cotado a R$ 1,768.

Apesar dos esforços de Monti para a formação do novo governo, o mercado não encontrou ânimo para estancar as perdas. O futuro chefe de governo bem que tentou, mas não conseguiu acalmar nem mesmo os italianos, que, na sua visão, poderão sofrer mais privações para que o país consiga se afastar do abismo econômico que o rodeia. “Sangue? Não. Lágrimas? Menos ainda. Sacrifícios? Talvez”, disse.

Estagnação
Na semana passada, os juros para títulos de dez anos da Itália dispararam para além de 7%, nível insustentável, o mesmo que já levou Portugal e Irlanda a pedirem socorro. “O BC italiano errou. Com cenário adverso e transição política, o país acabou confirmando a taxa imposta pelo mercado turbulento. O ideal seria esperar alguns dias para lançar os títulos”, disse o economista Raphael Martello, da consultoria Tendências. “Até Monti ser referendado pelas duas casas do Parlamento, as bolsas vão operar com a incerteza sobre sua real capacidade em lidar com a crise”, completou.

Para restaurar a confiança do mercado, o parlamento italiano aprovou, no fim de semana, um pacote de reformas econômicas. Berlusconi renunciou e o presidente Giorgio Napolitano nomeou Monti, economista de renome internacional, como chefe do novo governo. O novo governo tentará tocar reformas já acertadas com líderes europeus. A meta é reduzir a dívida italiana e tirar a economia da estagnação. Mas o novo todo-poderoso italiano poderá enfrentar oposição da esquerda e da direita contra as medidas mais impopulares, sobretudo as que envolvem aposentadoria e mercado de trabalho.

Para Creomar de Souza, professor do Ibmec-DF, mesmo durante a acomodação política do gabinete de conciliação, o primeiro-ministro italiano terá de encarar duros testes na tarefa de salvar a terceira maior economia da Zona do Euro. “A grande dúvida é saber se a mudança de comando chegou em tempo, considerando que o quadro financeiro se agravou muito nos últimos dias”, ressaltou.

Além disso, o momento atual exige mais capital político que financeiro e a boa vontade isolada de países do continente é insuficiente. O economista lembrou que, em duas décadas, o governo Berlusconi dividiu a Itália e ampliou perigosamente o panorama da dívida pública até consagrá-lo como parte do problema. Ontem, em frente à embaixada italiana na capital da Ucrânia, Kiev, ativistas da organização de defesa dos direitos das mulheres Femen ainda comemoravam a saída de Berlusconi.

The NY Times - O Sucesso da Alemanha e a Crise do Euro.

Success and Advice Cast a Giant as a Villain, Not a Model, in Europe

By NICHOLAS KULISH


Published: November 15, 2011


BERLIN — Throughout the crisis in the euro zone, as governments have fallen, debt burdens have mounted and economies have stagnated or shrunk, Germany has floated above the fray. While its economy has hummed along nicely, its leaders have steadfastly insisted that the path to redemption for the debtors lies in austerity and suffering.

When Chancellor Angela Merkel on Monday described the debt crisis as Europe’s “most difficult hours since World War II,” she was describing something most Germans had only read about in newspapers or watched on television. The German economy once again surprised experts on Tuesday, growing an unexpectedly healthy 0.5 percent in the third quarter and 2.5 percent higher than the year before.

While there were ominous signs that Europe’s slowdown would also strike Germany, its biggest economy — particularly worrisome was a sharp drop in industrial production in September — the pain that euro zone partners have been feeling has yet to arrive here.

With German consumers spending freely, unemployment has reached the lowest level since German reunification more than two decades ago, and it continued falling in October. Tax receipts consistently beat government projections, to the point that Mrs. Merkel’s coalition even has plans to cut taxes by more than $8 billion.

And in a widely noted twist on the accounting surprises that helped cover up Greek debts, Germany recently found its own mistake in the spreadsheets: its obligations were $76 billion lower than previously thought.

Germany’s continued prosperity has helped fuel growing anger in countries like Greece and Spain against what is increasingly viewed as harsh German domination. More and more, Germany is cast in the role of the villain, whether by protesters in the streets of Athens or by exasperated politicians in the halls at the recent Group of 20 meeting in Cannes, France.

“The Germans often don’t sufficiently appreciate how wrenching the economic changes are that they’re prescribing,” said Philip Whyte, a senior research fellow at the Center for European Reform in London.

Germany, Mr. Whyte said, was trying to remake all of Europe after its competitive, export-driven economic model, without understanding the connection between its success and foreign indebtedness in countries like Greece, which for years used borrowed funds to purchase German goods.

“Not everyone can be like Germany,” Mr. Whyte said. “The world as a whole doesn’t trade with the moon.”

European partners have taken notice of the yawning divide between their struggles and Germany’s strength, and of the way German leaders have resisted aggressive measures by the European Central Bank that may have provided some relief, but may also invite what for Germans is the deep dread of inflation.

Greeks in particular have been outraged at demands for change dictated by Berlin that impinge on their sovereignty. Some Greek protesters have even carried blue European Union flags with yellow swastikas in the middle and compare the debt deals to the occupation of Greece during World War II.

The European crisis has often been likened to a morality play — sinful southerners, virtuous northerners — but at times in Germany it has taken the shape of Wagnerian opera, with Germany cast as the dragon guarding its hoard of gold.

Last week, Germany was awash with reports of a proposal floated at the Group of 20 meeting that might have allowed the International Monetary Fund to draw on German gold reserves to bolster Europe’s rescue fund.

The condemnation was swift and disproportionately harsh for a suggestion that was basically doomed from the start. “The German gold reserves must remain untouchable,” said Philipp Rösler, the economy minister and vice chancellor.

A cartoon in the newspaper Süddeutsche Zeitung showed three men trying to crack a bank safe marked “Bundesbank gold and foreign currency reserves,” a reference to the German central bank.

The masked man attacking the safe with a drill had the German abbreviation for the European Central Bank on his back, while the one placing the dynamite bore the letters for the International Monetary Fund. Holding a flashlight was the president of the European Council, Herman Van Rompuy.

Leading politicians here defended the independence of the Bundesbank but also took the opportunity to call for Italy to sell off its own gold reserves, the fourth largest in the world after the United States, Germany and the International Monetary Fund.

“I am of the opinion that a country should do everything in its power to help itself,” said Gunther Krichbaum, chairman of the committee on European affairs in the German Parliament, who spoke in favor of Italy’s selling gold to help with its $2.6 trillion debt, “and in this regard Italy is far from exhausting its options.”

As the overall health of Germany’s economy and its fiscal position widen the rift with Europe’s poorer periphery, Germans have a ready response. They say that they already made the structural changes in work-force rules and pension reforms that they are now recommending for the slow-growth countries, and that, by the way, they actually pay their taxes. So if the laggards want Germany’s money, they have to play by German rules.

“We believe this success is because we have certain criteria around which we organize our economic policies, and these are the criteria we want other countries to comply with if they ask for our money,” said Tanja A. Börzel, a professor of European Union politics at the Free University in Berlin. “When you put national taxpayer money on the line, the people have a say, and that is if we have to eventually pay for the economic sins of others that they at least change their policies if we bail them out.”

Guntram B. Wolff, deputy director at Bruegel, a research group based in Brussels, said that as the focus in the debt crisis had shifted from the relatively small Greece to the much larger Italy, the need for domestic action versus international bailouts had risen. Mr. Wolff, who formerly worked at both the European Commission and the German Bundesbank, said that Berlin had played a more assertive role in the European crisis in part because the European Commission had not played as active a role as it could have, particularly over Italian indebtedness.

“The shift of power is clear,” Mr. Wolff said, “and you see that it is Berlin that has been gaining power.”

Stefan Pauly contributed reporting.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Indignados do mundo Uni-vos

Creomar Lima Carvalho de Souza

Toda crise traz uma oportunidade! Esse jargão vendido pelos manuais de administração mundo afora pode hoje ser aplicado à política. O prolongado processo de recessão econômica que abate o hemisfério norte e a falta de capacidade política dos dirigentes destas regiões em encontrar soluções para este problema gerou duas oportunidades: a primeira de reflexão acerca dos valores que compõe a democracia liberal contemporânea e a segunda conseqüente desta, da urgência no estabelecimento de uma relação mais equilibrada entre os interesses individuais, as necessidades das grandes corporações e o papel do Estado como árbitro desta relação.

E qual o papel dos movimentos populares nesta equação?

Basicamente, os movimentos dos indignados (termo criado durante as manifestações populares recentes na Espanha) que se alastram por toda a Europa Ocidental e desembarcam agora nos Estados Unidos da América, tem como preocupação fundamental o fato de que as autoridades políticas tem se mostrado incompetentes ou desinteressadas na solução da crise econômica que se aprofunda. E diferentemente de outros movimentos políticos a atual leva de manifestações tem fugido dos elementos tradicionais, tais como, partidos políticos e associações e buscado novas formas de ação.

Neste aspecto, as redes sociais surgem como um elemento novo do panorama político dando espaço gratuito e legitimidade a movimentos que não contam com o apadrinhamento nem com a boa vontade do status quo. Chama atenção a vontade destes grupos em exigir que a democracia se manifeste de forma mais pura. Isto quer dizer, há uma vontade de que as regras fiquem claras e que os interesses dos grandes grupos econômicos não se sobreponham aos direitos do cidadão comum.

Pode-se afirmar que a expressão “People Before Profits” – Pessoas antes dos lucros – permite um entendimento claro das expectativas e inseguranças que marcam tal movimento.

Obviamente, que qualquer generalização se torna perigosa ante a dificuldade de entendimento das especificidades de cada grupamento humano envolvido nestas manifestações. Porém, é um fato que as autoridades políticas tem tido enorme dificuldade de superar as dificuldades econômicas recentes.

O fracasso das autoridades políticas tradicionais abre, portanto, espaço para a livre manifestação e a necessidade de reflexão dos problemas que envolvem a democracia liberal em sua faceta representativa. Porém, as ações dos grupos de indignados ainda não possuem a capacidade de alterar as estruturas políticas vigentes. Cabe, entretanto, uma observação atenciosa do desenvolvimento de tais ações e de como as mesmas irão contaminar o espaço político tradicional tanto em âmbito de geração de resistências, quanto de transformações