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quinta-feira, 8 de março de 2012

Síria: agonia do regime e o nascimento de uma nova nação.

Os altos custos econômicos e sociais do conflito relacionam-se cada vez mais à luta travada entre as grandes potências e os poderes regionais sobre o futuro do país. Historicamente, nos momentos em que a Síria encontra-se unida e estável, ela representa um importante ator regional, mas quando está dividida, como agora, torna-se uma arena para a luta de forças externas, muito embora a revolta tenha se originado exclusivamente no seio de sua sociedade. O artigo é de Reginaldo Nasser.

Reginaldo Nasser (*)

Há um ano teve inicio a revolta na Síria que se tornou o episódio mais trágico, polêmico e incerto das revoltas árabes. Os altos custos humanos, econômicos e sociais do conflito relacionam-se cada vez mais à luta estratégica travada entre as grandes potências e os poderes regionais sobre o futuro do país. Historicamente, nos momentos em que a Síria encontra-se unida e estável, ela representa um importante ator regional, mas quando esta dividida e instável, como agora, torna-se uma arena para a luta de forças externas, muito embora a revolta tenha se originado exclusivamente no seio de sua sociedade.

Ao comparar o regime político da Síria com o de outras repúblicas árabes, é notável suas diferentes características: uma política externa mais congruente com a opinião pública (de forma retórica ou não), forças de segurança mais leais ao governo, uma sociedade civil mais fraca e uma oposição mais fragmentada. Talvez por isso mesmo a resposta inicial do regime frente às manifestações foi misturar repressão, ao condenar os manifestantes como parte de uma conspiração estrangeira, com tentativas tradicionais de apaziguamento e de cooptação.

Para o regime e seus aliados, a sociedade na Síria é imatura e suas tendências sectárias só podem ser contidas por uma estrutura de poder fortemente centralizada. Nesse sentido, remover Bashar é permitir a guerra civil e a hegemonia de poderes islâmicos apoiados pela Arábia Saudita e seus aliados ocidentais. Na verdade, essa estratégia - dividir para reinar - foi herdada do colonialismo, que já alimentava as fraturas na sociedade com o receio de que pudessem vir a sustentar um novo sentimento democrático verdadeiramente nacional.

É preciso reconhecer que nem todos os alauitas apóiam o governo. Alguns setores como intelectuais e camponeses ressentem-se com a forma que sua comunidade tem sido instrumentalizada pelo regime. Cristãos, que estão geograficamente dispersos, adotam pontos de vista extremamente diferentes.
Os que estão em Damasco e Alepo, em geral, apóiam o governo, mas em muitas outras áreas, os cristãos revelaram simpatia com os manifestantes. Os Ismaelitas, com sede na cidade de Salamiya, estavam entre os primeiros a aderir à oposição. Também não são todos os sunitas que protestam contra o governo, como por exemplo as tribos Shawaya no nordeste do pais.

Mais do que uma questão étnica, religiosa ou mesmo geográfica o conflito deve ser visto como um fenômeno de mudanças da base social do poder do governo Bashar.

O golpe que levou ao poder uma nova elite composta por oficiais militares foi moldado por suas origens rurais nas lutas sociais dos nacionalistas da década de 1960, resultando numa simbiose entre o partido Baath e as forças armadas (da seita alauita). Isso sempre provocou ressentimento entre a maioria da comunidade sunita, mais especificamente, nos setores comerciais urbanos representados pela Irmandade Muçulmana. As rebeliões urbanas, incluindo a insurreição que abalou as cidades do norte no início dos anos 1980 é um reflexo disso. Depois desse episódio, proliferaram as agências de inteligência para proteger o regime, os quais se mantinham leais por meio da tolerância de suas práticas corruptas. Hafez al-Assad usou e abusou de uma política externa nacionalista (árabe), como um Estado de linha de frente com Israel, para obter ajuda dos paises do Golfo Pérsico e da União Soviética.

Mas com o fim da Guerra fria a ajuda externa diminuiu consideravelmente, provocando fortes impactos na base fiscal do Estado e fazendo com que suas vulnerabilidades econômicas viessem à tona, apesar das receitas provenientes das reservas de petróleo que também diminuíram no final da década de 90. A legitimidade política derivada do "contrato social" pelo qual o regime proporcionava alimentos subsidiados e emprego para as classes média e baixa entrou em crise, dando inicio a uma política de austeridade com o congelamento dos benefícios sociais e redução do poder aquisitivo dos funcionários públicos. Os gastos do governo caíram de forma pronunciada (de 50% para 25% do PIB). Nesse contexto o regime pode manter um equilíbrio precário entre os seus antigos aliados e recém-emergentes burgueses apelando, para a necessidade de um novo consenso

Buscando consolidar o poder dentro do regime que herdou de seu pai, Bashar viu enfraquecida a sua capacidade de sustentar seu poder sobre a nova base de apoio social. Ao mesmo tempo a legitimidade nacionalista de política externa já não era capaz de se conciliar com a identidade nacionalista árabe, no conflito com Israel, com a integração da Síria na economia mundial. Mas quando o regime parecia mais vulnerável e isolado, Bashar deslocou o comércio exterior da Síria para China, Irã, Turquia e países do golfo. Em 2005, a Síria aparecia como o quarto maior país beneficiário do investimento árabe. O investimento estrangeiro direto passou de US$ 111 milhões em 2001 para US$1,6 bilhão em 2006.

Essas ações proporcionaram alivio econômico para as contas do governo, mas resultaram em uma mudança significativa da base social de sustentação do regime que passou a transferir suas responsabilidades de proteção social e de criação de empregos para instituições privadas, respondendo à demanda da nova elite. As terras do Estado foram vendidas para os novos investidores, o que resultou na elevação do custo da moradia e, consequentemente, no crescimento de bairros pobres em torno das cidades.

Não por acaso nas principais cidades, Damasco e Aleppo, onde o boom de investimentos, o aumento do turismo e do novo consumo se concentraram, o governo foi capaz de mobilizar demonstrações de apoio importantes, embora tenha ocorrido revoltas em seus arredores. A classe média dessas cidades via inicialmente Bashar como o protetor da ordem, preferindo a estabilidade aos riscos de democratização que pudesse trazer a guerra civil e a perda de seu estilo de vida moderno. Mas, a partir do momento que o regime mostrou sua incapacidade de manter a segurança, passou a criar desconfiança entre alguns de seus aliados.

Dificilmente o regime irá sobreviver a esta crise, que pode assumir novos e perigosos contornos. Os manifestantes, cada vez mais desesperados, devido a brutal repressão, se submetem a qualquer tipo de ajuda exterior sem pesar o custo de certas alianças políticas que poderá desfigurar aquilo que apareceu como a maior ameaça ao governo: amplo movimento democrático autônomo exigindo profundas mudanças políticas e econômicas. Entretanto, ao tratar todo e qualquer manifestante como inimigo, Bashar forjou contra si mesmo uma coligação (interna e externa) muito grande.

Apesar de o regime de Bashar revelar sinais de esgotamento a economia do país não vai entrar em colapso no curto prazo. A Síria não esta completamente isolada e continua o comércio com Iraque, Jordânia, Irã, Rússia e China. Alguns bancos do Líbano são susceptíveis de agir como um paraíso para o dinheiro sírio. Quase todos os clássicos ingredientes para ocorrer uma revolução podem ser notados na Síria: crescimento demográfico, mobilização social, estagnação do desenvolvimento econômico, déficit fiscal crônico, aumento da desigualdade social e repressão política. Falta, entretanto, outro elemento necessário que abreviaria o final do regime: divisão das forças armadas.

Muito embora não se possa prever se, e quando, o regime de Bashr vai cair e muito menos quem serão os vencedores, cito aqui o velho ditado lembrado pelo prof Hamid Dabashi, que a partir de agora deverá ser válido para a Síria: você pode conquistar uma terra a cavalo, mas você deve descer para governá-la. Ou seja, quando os “novos conquistadores” tomarem o poder estarão de frente para uma nação que dificilmente será ludibriada ou amedrontada.

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Carta Maior - O Irão e o Oriente Médio.

O cerco ao Irã

Todo o alarde por parte dos EUA e Israel é insustentável e serve para camuflar aquilo que realmente é motivo de preocupação: a crescente importância estratégica do Irã e sua liderança na região do Grande Oriente Médio. Longe de ser o arauto do apocalipse, o sonho do Irã, que sempre foi um "ator racional", é alcançar a hegemonia regional. Por quais motivos o Irã poderia ser convencido a suspender o enriquecimento nuclear sem que, da mesma forma que Israel, suas preocupações com sua segurança sejam levadas em consideração? O artigo é de Reginaldo Nasser.
Reginaldo Nasser


O Departamento de Estado dos EUA declarou no final do mês de dezembro que o Irã estava manifestando "comportamento irracional" ao ameaçar fechar o estreito de Hormuz, ponto de passagem de 20% do petróleo mundial. Algo improvável já que grande parte dos 2,2 milhões barris/dia (mais de 50% de sua receita) que o Irã exporta passa pelo Estreito e sua obstrução viria causar sérios danos em sua economia que já sofre com as sanções internacionais. Na verdade, a declaração do vice-presidente do Irã, Mohammad Rahimi, foi que "não passaria uma só gota de petróleo pelo Estreito SE o Ocidente impusesse sanções sobre as exportações de petróleo de seu pais”.

Como já é de costume, quando se trata dos países rotulados como rogue-states, a questão hipotética de uma agressão dos EUA foi simplesmente suprimida na grande imprensa internacional. O que fez com que a declaração do iraniano aparecesse como uma ameaça e não como uma provável reação a um ataque. Claro que não se trata de um simples problema gramatical, mas de sim de linguagem típica de um poder hegemônico.

O Irã voltou a ser objeto de preocupação da chamada comunidade internacional – isto é EUA, Inglaterra, França e Israel - após a divulgação do novo relatório da AIEA (Agencia Internacional de Energia Atômica), no dia 8 novembro 2011, sobre a possível construção de instalações nucleares para fins bélicos, em um momento de eleições nos paises envolvidos. Em março, o Irã realiza eleições parlamentares que se espera ser um confronto entre radicais e moderados, enquanto nos EUA os candidatos do Partido Republicano nos EUA já anunciam a necessidade de bombardear o Irã ao mesmo tempo em que criticam a "fraqueza" do presidente Obama.

A grande imprensa norte-americana, como sempre, deu sua prestimosa colaboração para acionar os tambores da guerra. The Washington Post e The New York Times estamparam em sua matéria de capa, um dia após a divulgação do relatório, a informação de que os investigadores da AIEA acumularam uma coleção de novas evidências de que o Irã manifestou objetivos bélicos em seu programa nuclear. No entanto em matéria publicada na revista The New Yorker (November 18, 2011 Iran and the IAEA.) Seymor Hersch, após entrevistar uma série de especialistas sobre o tema, concluiu que as alegações básicas no relatório não continham nada substancialmente novo.

Robert Kelley, ex-diretor da AIEA, Greg Thielmann, ex-funcionário do Departamento de Estado e especialista no tema, e a organização Arms Control Association, cuja missão é incentivar o apoio público para o controle de armas de destruição em massa, observaram que a AIEA apenas reforçou o que a comunidade internacional já sabia desde 2003. Ou seja, que o relatório da AIEA apenas aponta indícios preocupantes e não há nada que indique que o Irã está realmente construindo uma bomba.

Portanto, “um Irã com armas nucleares ainda não é iminente e nem é inevitável. Aqueles que querem angariar apoio para um ataque ao Irã estão deturpando o relatório”.

Patrick Pexton, ombudsman do Washington Post, e Arthur Brisbane, editor do New York Times, responderam às objeções dos leitores, dois meses depois, concordando que, em nenhum momento a AIEA chegou a fazer uma declaração conclusiva clara. Brisbane declarou ainda que a linguagem utilizada pelo NYT estava equivocada e que o NYT deveria corrigir sua matéria porque trata-se de um caso que uma frase não faz justiça a um conjunto de nuances reveladas pelos fatos. Sendo que a distinção a ser feita é importante porque “o programa iraniano tem aparecido como um possível casus belli (ver NYT Public Editor: IAEA ‘Stops Short Of Making A Clear Conclusive Statement’ On Iran Nuke Program http://thinkprogress.org/ By Ali Gharib on Jan 10, 2012).

Na retórica de muitos políticos e comentadores americanos e judeus, a República Islâmica do Irã é retratada como um regime que não pensa sua política externa em termos de interesses nacionais. Invocam cenários apocalípticos de um pais inclinado a usar armas nucleares contra alvos israelenses ou europeus, sem se importar com as conseqüências sugerindo que o Irã aspira, na verdade, à autodestruição. Pois é suficientemente conhecida a capacidade militar de Israel. Aliás, como já observou o analista do Air Force Research Institute, Adam Lowther, não apenas os judeus, mas os palestinos teriam razão de sobra para preocupação, porque um ataque nuclear contra Israel iria devastá-los também.

Na verdade todo esse alarde por parte dos EUA e Israel é insustentável e serve para camuflar aquilo que realmente é motivo de preocupação: a crescente importância estratégica do Irã e sua liderança na região do Grande Oriente Médio. Longe de ser o arauto do apocalipse, o sonho do Irã, que sempre foi um "ator racional", é alcançar a hegemonia regional. Nos últimos oitos anos, o Irã construiu uma enorme rede de influência com xiitas e sunitas após os EUA derrubarem seus dois principais inimigos: o Talebã no Afeganistão e Saddam no Iraque; consolidou suas alianças com Hamas e Hezbollah, legitimados por seus êxitos eleitorais, tornando-se peça decisiva na Palestina e no Líbano.

No mesmo mês em que o relatório da AIEA foi publicado, os EUA anunciaram a assinatura de um acordo de venda de armas, munições, peças de reposição, treinamento de pessoal militar com a Arábia Saudita no valor de $30 bilhões. De acordo com oficial do Departamento de Estado, Andrew Shapiro, "essa venda irá enviar uma forte mensagem aos países da região que os Estados Unidos estão comprometidos com a estabilidade no Golfo e Médio Oriente." Cabe lembrar ainda a fala do príncipe Turki al-Faisal (chefe de inteligência na Arábia Saudita ) em reunião ocorrida em uma base militar da OTAN no Reino Unido (os documentos foram revelados pelo Wall Street Journal 22/07/2011) que "o Irã é muito vulnerável no setor de petróleo, e é nele que mais poderia ser feito para coagir o atual governo”. Argumentou que “a Arábia Saudita tem plena capacidade de produção [reposição] de quase 4 milhões de barris/dia - que poderíamos quase instantaneamente substituir toda a produção de petróleo do Irã”.

Qualquer que seja o perfil de uma nova ordenação nuclear esta deverá ser o resultado da interação dos motivos pelos quais um Estado persegue a energia nuclear, a legitimidade das restrições e, principalmente, que o país possa ter sua segurança garantida. Assim, é compreensível que Israel não vai desistir de suas armas nucleares (elemento de dissuasão) até que as suas preocupações mais amplas de segurança sejam resolvidas (e talvez nem assim). Mas por quais motivos o Irã poderia ser convencido a suspender o enriquecimento nuclear sem que, da mesma forma que Israel, suas preocupações com sua segurança sejam levadas em consideração? (Stephen Walt, A non-proliferation puzzle. S Foreign Policy , May 6, 2010).

Portanto, a polêmica questão nuclear envolvendo o Irã só poderá ser realmente discutida se a comunidade internacional vinculá-la ao processo de paz na região. Por falar nisso, onde estão Brasil e Turquia que exerceram papel fundamental de mediadores da crise com Irã, em 2010, impedindo uma ação militar que parecia iminente?

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

domingo, 2 de outubro de 2011

iFHC - O que os vizinhos pensam do Brasil

Sérgio Fausto

O protagonismo do Brasil na América do Sul não é uma questão de escolha. Tornou-se um dado da realidade, com o declínio relativo da Argentina e a perda de influência dos Estados Unidos na região. Deve até aumentar no futuro previsível, dadas as tendências expansionistas da economia brasileira. A questão é saber se esse protagonismo se traduzirá em liderança e se ela será positiva para a região em seu conjunto.
Em síntese, essa foi a visão da maioria dos líderes políticos sul-americanos presentes em mesa-redonda organizada recentemente pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) para discutir o papel do Brasil na América do Sul. Participaram da discussão o expresidente da Bolívia Carlos Mesa, o senador chileno e ex-chanceler Ignacio Walker, a senadora uruguaia Constanza Moreira, o ex-ministro da Justiça do Peru Fausto Alvarado, além de vários brasileiros, como os embaixadores Sergio Amaral e José Botafogo Gonçalves e o ex-chanceler Celso Lafer. Uma amostra representativa da centro-esquerda democrática sul-americana.
Apesar de uma percepção em geral positiva sobre o Brasil, detectam-se incerteza e mesmo inquietude em relação ao "gigante sul-americano".
Existe receio de que a expansão das exportações e dos investimentos brasileiros em outros países da América do Sul prejudique a capacidade de produção e geração de empregos de suas economias. E que isso leve mais água para o moinho de governos, partidos e/ou movimentos adeptos de um nacionalismo retrógrado com inclinações populistas e autoritárias. Em países menores, sobretudo naqueles onde há ressentimento histórico em relação ao Brasil, como a Bolívia e o Paraguai, é bem vivo o temor de que o extravasamento da economia brasileira acabe por levá-los a uma situação de subordinação política ao colossal vizinho. Mesmo no Uruguai, o mais desenvolvido dos 1 / 3pequenos países fronteiriços, observa-se um incipiente nacionalismo antibrasileiro, em reação à compra de terras em quantidade crescente por empresas brasileiras naquele país.
Algumas características do investimento brasileiro na região reforçam o sentimento descrito. O fato de grandes companhias brasileiras receberem apoio do BNDES para a aquisição de empresas locais acentua a percepção de que nosso país conta com um poder excessivo, derivado não apenas do porte e da eficiência de seus maiores grupos empresariais, mas também da estreita associação entre eles e o Estado brasileiro. A propósito, em entrevista recente ao jornal Valor Econômico, o presidente da União Industrial Argentina afirmou, com exagero característico: "Só quando tivermos um BNDES poderemos abaixar a guarda".
A reação à crescente presença brasileira na América do Sul poderia ser atenuada se fossem os investimentos feitos em parceria com grupos locais, mas as joint ventures são raras, predominando o controle do investidor brasileiro sobre o negócio. São raros também os fornecedores locais que se beneficiam dos empréstimos concedidos pelo BNDES a governos vizinhos, em financiamentos vinculados ao pagamento de obras e serviços realizados pelas grandes empreiteiras brasileiras nos países da região.
Em suma, à constatação de assimetria na relação com o Brasil soma-se o sentimento de que se está diante de uma competição desleal contra um poder cujo funcionamento parece opaco. De fato, não há nada similar na região à aliança entre grandes grupos empresariais privados, fundos de pensão públicos, empresas estatais e banco de desenvolvimento. Com frequência o investimento e o crédito chineses surgem como alternativas bem-vistas diante do temor de se tornar muito dependente do Brasil, apesar de as relações entre Estado e empresas serem na China muito mais opacas do que aqui.
Além de pouco transparente, o Brasil é visto como "soberanista", isto é, relutante em ceder parcelas de sua autonomia decisória em benefício do fortalecimento de instituições de governança coletiva da região. Desse "soberanismo" faria parte a resistência a pagar o custo financeiro, em favor da integração, correspondente ao tamanho de sua economia, como a Alemanha na Europa.
O Brasil é também considerado ambivalente quanto à importância que sua política 2 / 3externa atribui à região. Embora a centralidade da América do Sul esteja claramente definida no discurso, resta muita dúvida sobre se o Brasil de fato considera que o fortalecimento de sua liderança regional é mesmo necessário à realização de suas ambições como global player. Critica-se o governo brasileiro por supostamente não consultar os governos sul-americanos antes de tomar iniciativas no plano internacional, ao mesmo tempo que invoca a sua condição de líder regional quando lhe interessa fazê-lo nas negociações internacionais.
É nítido o contraste entre a percepção de que o Brasil é autocentrado e até certo ponto voraz em relação aos vizinhos e a opinião que no geral se tem aqui dentro a respeito da atitude do governo brasileiro em relação à região, normalmente percebida como muito generosa com as demandas de alguns países e tolerante com eventuais desmandos contra empresas brasileiras que operam na vizinhança.
Para o Brasil, não se trata, é claro, de moldar o figurino de sua política externa sulamericana à opinião média de seus vizinhos, que, aliás, varia de país a país. Trata-se, isso sim, de constatar que nos faz falta - na sociedade e no governo - um pensamento sobre a América do Sul que leve na devida conta a percepção dos outros países da região a nosso respeito, sem perder de vista os interesses brasileiros. Precisamos de uma visão abrangente e de longo prazo, que não se deixe levar por simpatias ideológicas episódicas nem por ilusões de que o peso econômico do Brasil se traduzirá automaticamente em maior liderança política. À medida que cresça a nossa presença na região, essa visão será cada vez mais indispensável.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Discurso da Exma. Sra. Pres. Dilma Roussef - Abertura da 66ª Assembleia-Geral da ONU.

Senhor presidente da Assembleia-Geral, Nassir Abdulaziz Al-Nasser, senhor secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, senhoras e senhores chefes de Estado e de Governo, senhoras e senhores, pela primeira vez, na história das Nações Unidas, uma voz feminina inaugura o Debate Geral. É a voz da democracia e da igualdade se ampliando nesta tribuna que tem o compromisso de ser a mais representativa do mundo. É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico. Divido esta emoção com mais da metade dos seres humanos deste planeta, que, como eu, nasceram mulher, e que, com tenacidade, estão ocupando o lugar que merecem no mundo. Tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres.

Na língua portuguesa, palavras como "vida", "alma" e "esperança" pertencem ao gênero feminino. E são também femininas duas outras palavras muito especiais para mim: "coragem" e "sinceridade". Pois é com coragem e sinceridade que quero lhes falar no dia de hoje. Senhor presidente, o mundo vive um momento extremamente delicado e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade histórica. Enfrentamos uma crise econômica que, se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social. Uma ruptura sem precedentes, capaz de provocar sérios desequilíbrios na convivência entre as pessoas e as nações. Mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados.

Agora, menos importante é saber quais foram os causadores da situação que enfrentamos, até porque isto já está suficientemente claro. Importa, sim, encontrarmos soluções coletivas, rápidas e verdadeiras. Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países. Seus governos e bancos centrais continuam com a responsabilidade maior na condução do processo, mas como todos os países sofrem as consequências da crise, todos têm o direito de participar das soluções. Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e algumas vezes, por clareza de ideias. Uma parte do mundo não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento. Ficam presos na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade. O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo.

Enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise - a do desemprego - se amplia. Já temos 205 milhões de desempregados no mundo. 44 milhões na Europa. 14 milhões nos Estados Unidos. É vital combater essa praga e impedir que se alastre para outras regiões do planeta. Nós, mulheres, sabemos, mais que ninguém, que o desemprego não é apenas uma estatística. Golpeia as famílias, nossos filhos e nossos maridos. Tira a esperança e deixa a violência e a dor. Senhor presidente, é significativo que seja a presidenta de um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego, que venha falar, aqui, hoje, com cores tão vívidas, dessa tragédia que assola, em especial, os países mais desenvolvidos. Como outros países emergentes, o Brasil tem sido, até agora, menos afetado pela crise mundial. Mas sabemos que nossa capacidade de resistência não é ilimitada. Queremos - e podemos - ajudar, enquanto há tempo, os países onde a crise já é aguda. Um novo tipo de cooperação, entre países emergentes e países desenvolvidos, é a oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais. O mundo se defronta com uma crise que é ao mesmo tempo econômica, de governança e de coordenação política.

Não haverá a retomada da confiança e do crescimento enquanto não se intensificarem os esforços de coordenação entre os países integrantes da ONU e as demais instituições multilaterais, como o G-20, o Fundo Monetário, o Banco Mundial e outros organismos. A ONU e essas organizações precisam emitir, com a máxima urgência, sinais claros de coesão política e de coordenação macroeconômica. As políticas fiscais e monetárias, por exemplo, devem ser objeto de avaliação mútua, de forma a impedir efeitos indesejáveis sobre os outros países, evitando reações defensivas que, por sua vez, levam a um círculo vicioso. Já a solução do problema da dívida deve ser combinada com o crescimento econômico. Há sinais evidentes de que várias economias avançadas se encontram no limiar da recessão, o que dificultará, sobremaneira, a resolução dos problemas fiscais. Está claro que a prioridade da economia mundial, neste momento, deve ser solucionar o problema dos países em crise de dívida soberana e reverter o presente quadro recessivo. Os países mais desenvolvidos precisam praticar políticas coordenadas de estímulo às economias extremamente debilitadas pela crise. Os países emergentes podem ajudar.

Países altamente superavitários devem estimular seus mercados internos e, quando for o caso, flexibilizar suas políticas cambiais, de maneira a cooperar para o reequilíbrio da demanda global. Urge aprofundar a regulamentação do sistema financeiro e controlar essa fonte inesgotável de instabilidade. É preciso impor controles à guerra cambial, com a adoção de regimes de câmbio flutuante. Trata-se, senhoras e senhores, de impedir a manipulação do câmbio tanto por políticas monetárias excessivamente expansionistas como pelo artifício do câmbio fixo. A reforma das instituições financeiras multilaterais deve, sem sombra de dúvida, prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes, principais responsáveis pelo crescimento da economia mundial. O protecionismo e todas as formas de manipulação comercial devem ser combatidos, pois conferem maior competitividade de maneira espúria e fraudulenta.

Senhor presidente, o Brasil está fazendo a sua parte. Com sacrifício, mas com discernimento, mantemos os gastos do governo sob rigoroso controle, a ponto de gerar vultoso superávit nas contas públicas, sem que isso comprometa o êxito das políticas sociais, nem nosso ritmo de investimento e de crescimento. Estamos tomando precauções adicionais para reforçar nossa capacidade de resistência à crise, fortalecendo nosso mercado interno com políticas de distribuição de renda e inovação tecnológica. Há pelo menos três anos, senhor presidente, o Brasil repete, nesta tribuna, que é preciso combater as causas, e não só as consequências da instabilidade global. Temos insistido na interrelação entre desenvolvimento, paz e segurança; e que as políticas de desenvolvimento sejam, cada vez mais, associadas às estratégias do Conselho de Segurança na busca por uma paz sustentável. É assim que agimos em nosso compromisso com o Haiti e com a Guiné-Bissau. Na liderança da Minustah, temos promovido, desde 2004, no Haiti, projetos humanitários, que integram segurança e desenvolvimento. Com profundo respeito à soberania haitiana, o Brasil tem o orgulho de cooperar para a consolidação da democracia naquele país. Estamos aptos a prestar também uma contribuição solidária, aos países irmãos do mundo em desenvolvimento, em matéria de segurança alimentar, tecnologia agrícola, geração de energia limpa e renovável e no combate à pobreza e à fome.

Senhor presidente, desde o final de 2010, assistimos a uma sucessão de manifestações populares que se convencionou denominar "primavera árabe". O Brasil é pátria de adoção de muitos imigrantes daquela parte do mundo. Os brasileiros se solidarizam com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal: a liberdade. É preciso que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo. Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas. Apoiamos o secretário-geral no seu esforço de engajar as Nações Unidas na prevenção de conflitos, por meio do exercício incansável da democracia e da promoção do desenvolvimento. O mundo sofre, hoje, as dolorosas consequências de intervenções que agravaram os conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis. Muito se fala sobre a responsabilidade de proteger; pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger. São conceitos que precisamos amadurecer juntos. Para isso, a atuação do Conselho de Segurança é essencial, e ela será tão mais acertada quanto mais legítimas forem suas decisões. E a legitimidade do próprio Conselho depende, cada dia mais, de sua reforma.

Senhor presidente, a cada ano que passa, mais urgente se faz uma solução para a falta de representatividade do Conselho de Segurança, o que corrói sua eficácia. O ex-presidente Joseph Deiss recordou-me um fato impressionante: o debate em torno da reforma do Conselho já entra em seu 18º ano. Não é possível, senhor presidente, protelar mais. O mundo precisa de um Conselho de Segurança que venha a refletir a realidade contemporânea; um Conselho que incorpore novos membros permanentes e não-permanentes, em especial representantes dos países em desenvolvimento. O Brasil está pronto a assumir suas responsabilidades como membro permanente do Conselho. Vivemos em paz com nossos vizinhos há mais de 140 anos. Temos promovido com eles bem-sucedidos processos de integração e de cooperação. Abdicamos, por compromisso constitucional, do uso da energia nuclear para fins que não sejam pacíficos. Tenho orgulho de dizer que o Brasil é um vetor de paz, estabilidade e prosperidade em sua região, e até mesmo fora dela. No Conselho de Direitos Humanos, atuamos inspirados por nossa própria história de superação. Queremos para os outros países o que queremos para nós mesmos. O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação, todos são algozes dos direitos humanos. Há violações em todos os países, sem exceção. Reconheçamos esta realidade e aceitemos, todos, as críticas. Devemos nos beneficiar delas e criticar, sem meias-palavras, os casos flagrantes de violação, onde quer que ocorram.

Senhor presidente, quero estender ao Sudão do Sul as boas vindas à nossa família de nações. O Brasil está pronto a cooperar com o mais jovem membro das Nações Unidas e contribuir para seu desenvolvimento soberano. Mas lamento ainda não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na Organização das Nações Unidas. O Brasil já reconhece o Estado palestino como tal, nas fronteiras de 1967, de forma consistente com as resoluções das Nações Unidas. Assim como a maioria dos países nesta Assembleia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título. O reconhecimento ao direito legítimo do povo palestino à soberania e à autodeterminação amplia as possibilidades de uma paz duradoura no Oriente Médio. Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional. Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia - como deve ser.

Senhor presidente, o Brasil defende um acordo global, abrangente e ambicioso para combater a mudança do clima no marco das Nações Unidas. Para tanto, é preciso que os países assumam as responsabilidades que lhes cabem. Apresentamos uma proposta concreta, voluntária e significativa de redução (de emissões), durante a Cúpula de Copenhague, em 2009. Esperamos poder avançar já na reunião de Durban, apoiando os países em desenvolvimento nos seus esforços de redução de emissões e garantindo que os países desenvolvidos cumprirão suas obrigações, com novas metas no Protocolo de Quioto, para além de 2012. Teremos a honra de sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em junho do ano que vem. Juntamente com o secretário-geral Ban Ki-moon, reitero aqui o convite para que todos os chefes de Estado e de Governo compareçam.

Senhor presidente e minhas companheiras mulheres de todo mundo, o Brasil descobriu que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. E que uma verdadeira política de direitos humanos tem por base a diminuição da desigualdade e da discriminação entre as regiões, entre as pessoas e entre os gêneros. O Brasil avançou política, econômica e socialmente sem comprometer sequer uma das liberdades democráticas. Cumprimos quase todos os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, antes de 2015. Saíram da pobreza e ascenderam para a classe média no meu país quase 40 milhões de brasileiras e de brasileiros. Tenho plena convicção de que cumpriremos nossa meta de, até o final do meu governo, erradicar a pobreza extrema no Brasil. No meu país, a mulher tem sido fundamental na superação das desigualdades sociais. Nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central. São elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos. Mas o meu país, como todos os países do mundo, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher. Ao falar disso, cumprimento o secretário-geral Ban Ki-moon pela prioridade que tem conferido às mulheres em sua gestão à frente das Nações Unidas. Saúdo, em especial, a criação da ONU Mulher e sua diretora-executiva, Michelle Bachelet. Senhor presidente, além do meu querido Brasil, sinto-me, aqui, hoje, representando também todas as mulheres do mundo. As mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos; aquelas que padecem de doenças e não podem se tratar; aquelas que sofrem violência e são discriminadas no emprego, na sociedade e na vida familiar; aquelas cujo trabalho no lar cria as gerações futuras. Junto minha voz às vozes das mulheres que ousaram lutar, que ousaram participar da vida política e da vida profissional, e conquistaram o espaço de poder que me permite estar aqui. Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade. E é com a esperança de que estes valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra de iniciar o Debate Geral da 66ª Assembleia-Geral da ONU. Muito obrigada.

sábado, 16 de abril de 2011

Coluna Direto de Buenos Aires - Tais Julião

As relações Argentina - Estados Unidos contemporâneas

Por: Taís Sandrim Julião*

Nos anos 1990, a Argentina figurava como um dos principais parceiros dos Estados Unidos na América Latina. Isso se devia principalmente à convergência entre o ideário denominado “Consenso de Washington” e as políticas macroeconômicas implantadas por Buenos Aires. A Argentina passou por um processo acelerado de privatizações de empresas estatais estratégicas – como na área de comunicações, transportes e energia -, abertura econômica e a adoção de medidas cambiais radicais. Esse período de alinhamento político-econômico aos Estados Unidos motivou a utilização da expressão “relações carnais” para descrever o estado das relações bilaterais.
No início dos anos 2000, o país enfrentou uma severa crise inflacionária, que viria a alterar não somente as dinâmicas macroeconômicas, mas também o cenário político argentino. Desde a crise econômica e social de 2001, as relações com os Estados Unidos tem sido objeto de reavaliação, iniciando-se processo de paulatino desgaste, ainda em curso.
Em muitos países latinoamericanos, as políticas neoliberais não foram capazes de realizar o projeto a que se propunham. Na Argentina, o modelo não somente fracassou como também provocou uma reflexão política crítica sobre o papel das relações com os Estados Unidos e com os organismos financeiros internacionais – em particular, o Fundo Monetário Internacional (FMI) -, como co-responsáveis pela situação degradante em que se encontrava do país.
Entre 1999 e 2002, o país buscou recuperar suas instituições básicas e garantir a continuidade do processo democrático. Em 2003, foi eleito Néstor Kirchner, que ascendeu ao poder com a bandeira de renovação da política nacional e da defesa dos interesses argentinos. A relação com o FMI tornou-se conflitiva, e foram aprofundados laços com outros eixos, tais como a América do Sul e a América Latina.
A continuidade do kircherismo deu-se pela eleição de Cristina Kirchner em 2007, o que garantiu a continuidade de alguns processos políticos e econômicos iniciados na presidência anterior. No entanto, no que diz respeito às relações com os Estados Unidos, aprofundaram-se os antagonismos.
Em linhas gerais, as relações Buenos Aires-Washington contemporâneas podem ser compreendidas por meio de dois movimentos. O primeiro diz respeito ao processo de associação da presença estadunidense no país com a crise econômica e social dos anos 2000. A recuperação do país – ainda em curso, diga-se de passagem -, não deve pautar-se em um adensamento das relações comerciais e políticas com os Estados Unidos, mas sim em uma política externa plural, capaz de contribuir no fortalecimento da economia nacional, sobretudo a partir dos fluxos de comércio com novos e tradicionais parceiros da região.
Incidentes diplomáticos ocorridos neste ano sinalizam para o clima nada amistoso que impera entre os dois países desde meados de 2000: a apreensão da carga de uma aeronave norte-americana que trazia equipamentos militares para treinamento, e a visita de Obama ao Chile e ao Brasil, abordada pelos jornais com a manchete “Obama sobrevoa a Argentina”. Eventos como esses têm contribuído para o estabelecimento de um sentimento ambíguo com relação ao papel dos Estados Unidos.
Ademais, a decisão de reposicionar os Estados Unidos na agenda de política externa corrobora as percepções de demais países em desenvolvimento sobre o declínio estadunidense como pólo de poder central na economia política internacional. Dessa forma, os fluxos econômicos parecem apontar para o aprofundamento das relações com países parceiros - ou seja, países em desenvolvimento que compartilham uma visão sobre as mudanças na ordem internacional contemporânea -, e das relações no âmbito do Mercosul, em particular com o Brasil.
A propósito, o segundo movimento está relacionado à dinâmica brasileira no contexto regional e na política internacional. A Argentina parece observar o Brasil com olhos atentos. Por um lado, tem aderido ao projeto de construção de uma América do Sul unida e fortalecida política e economicamente. A Argentina tem buscado aproveitar o bom desempenho brasileiro para aprofundar as relações no âmbito do Mercosul comercial.
Por outro, preocupa-se com o ambiente favorável à campanha do Brasil para tornar-se membro permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas – posto também cobiçado pelos argentinos. Em termos políticos, a Argentina deseja ser um parceiro horizontal, reforçando que ambos os países exercem em parceria a liderança no subcontinente e, nesse sentido, são interdependentes em diversas agendas regionais e multilaterais.
Em 2011, ocorrerão eleições presidenciais e a presidente Kirchner ainda não se posicionou sobre uma possível candidatura à reeleição. Todavia, o cenário político aponta para uma continuidade do kirchnerismo. Nesse cenário, Estados Unidos parece ser cada vez menos uma opção na política externa argentina.

*Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Infomoney - Elevação do juro na Europa aumentará crise fiscal, apontam estudiosos

Por: Natália Wagner Rodrigues

InfoMoney

SÃO PAULO – O BCE (Banco Central Europeu) elevou a taxa básica de juro, confirmando a expectativa do mercado, na tentativa de conter a inflação que vem castigando a economia do velho continente. Embora a medida busque ser coerente com um ponto de vista econômico teórico mias ortodoxo, há uma série de contrapartidas há considerar.

De acordo com Creomar Lima Carvalho de Souza, professor de Relações Internacionais do IBMEC/DF, a Europa perdeu a confiabilidade dos investidores, já que desde 2008 vem encontrando sérias dificuldades para superar a crise. A situação se agravou ainda mais com a crise fiscal que acometeu a região. Sendo assim, para o professor, a elevação dos juro pode acentuar ainda mais esse cenário preocupante.

Elevação era necessária
O BCE encerrou um ciclo de 23 meses sem alta dos juros. Para o professor de economia da FGV (Fundação Getulio Vargas), Evaldo Alves, a inflação bateu à porta da Europa – em março a alta dos preços superou o limite de 2% estipulado pelo BCE registrando 2,6% de inflação- e o aumento de preços ocasionado por um choque de commodities (alimentares e energéticas) não deixou outra alternativa. Essa foi a primeira elevação em quase dois anos.

Defendendo a mesma visão, o professor da economia da Trevisan, Alcides Leite, destaca que o BCE tentou postergar ao máximo a subida dos juros, até o ponto em que isso não era mais viável. “Eles esticaram ao máximo, agora não há mais saída porque a situação estava ficando preocupante”, destaca.

O próprio presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, já havia afirmado anteriormente que um aumento era possível, diante do choque de petróleo, mas garantiu que esse não será o início de um ciclo. Porém, essa solução para uma inflação de custos pode também trazer importantes efeitos negativos, a conhecida "faca de dois gumes".

Recuperação ameaçada
Ainda segundo Leite, a decisão do BCE pode conter a recuperação econômica na região. Alves explica que, pelo fato de alguns governos já terem um nível de endividamento acima do limite aceitável, a subida dos juros vai colocar mais pressão à situação fiscal europeia. “Na teoria é bonito, mas na prática a economia [da União Europeia] vai ficar ainda mais exposta à crise fiscal”, avalia Alves, que ressalta o aumento do custo da dívida do governo, decorrente da subida dos juros.

Segundo Creomar, esse decisão apenas “tapa o Sol com a peneira”, uma vez que o problema de alguns países europeus não é só uma questão de crédito. “O BCE terá que unir combate à inflação com crescimento econômico, o que é muito difícil”, afirma.

O problema vai além
O professor da Ibmec ressalta que por trás da crise fiscal e do alto endividamento de alguns países, há uma questão estrutural muito forte. As políticas públicas adotadas pelos países europeus não são mais sustentáveis.

Os Estados não podem mais sustentar o alto padrão de vida que deram aos seus cidadãos. A população europeia está envelhecida e a questão do endividamento deve pesar ainda mais porque não há competitividade econômica e não há grandes inovações que possam reanimar a economia, segundo Creomar. O professor da FGV explica que, como a população trabalha pouco e está acostumada com um alto padrão de vida, será difícil mudar essa mentalidade e conscientizar acerca da necessidade de aumentar a competitividade regional.

Alves ainda acrescenta que para a única saída para a Europa conseguir enfrentar esse aumento de juros, sem afundar mais na estagnação econômica, é o aumento da produtividade. Porém, o professor ressalta: “Não estamos nem ouvindo falar disso por lá”.

O fim da zona do euro?
Para André Perfeito, economista da Gradual, o fim da Zona do Euro é “impensável”. Ele explica que, mesmo que a situação de alguns países como Portugal, Irlanda e Grécia piorar, a Alemanha pode socorrê-los.

O professor Creomar também acredita que esse não deve ser o fim da zona do euro, mesmo porque o que é desvantagens para uns em um momento pode se converter em vantagens no futuro. Ele explica que Portugal, Grécia e Irlanda foram beneficiados pela expansão da Zona do Euro no passado, mas agora passam por uma crise, já que não, por estarem presos à moeda, não podem promover uma depreciação cambial para amenizar os efeitos da crise fiscal.

Creomar ainda ressalta que cada país terá que fazer sua parte para recuperar a Europa. “Todos [os países europeus] terão que se modernizar, ampliar seus parques industriais e achar o melhor nicho de mercado para reverter a situação, não é justo jogar tudo nas costas da Alemanha”, conclui. Além disso, cabe destacar que o euro funciona, além de elemento econômico, como um elemento de união cultural no continente, portanto um colapso teria efeitos ainda mais adversos.

Visão menos otimista tem o mega investidor, Warren Buffett. Ao avaliar um possível colapso da moeda comum, Buffett dá o seu veredito: "Não acho impensável"

terça-feira, 5 de abril de 2011

Valor Econômico - FMI solta versão 'light' de controle de capital

Alex Ribeiro | De Washington


O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulga nos próximos dias um documento sobre controles de capitais que reflete a profunda divisão entre países emergentes e avançados sobre o tema. A simples divulgação do documento é, para muitos, um sinal de vitória das economias avançadas que, de forma geral, querem uma espécie de código de conduta para os controles de capitais. Mas as economias emergentes conseguiram suavizar os termos finais do documento para evitar que ele se torne uma camisa-de-força.

O documento, chamado "Recente experiências na administração de controles de capitais", foi discutido em fins de março em reunião da diretoria-executiva do FMI, na qual o Brasil é representado pelo economista Paulo Nogueira Batista Jr. O tema controle de capitais deverá ser um dos mais importantes na reunião de primavera do FMI, que ocorre em Washington na semana que vem.

A vitória mais importante dos emergentes no sentido de suavizar o documento foi eliminar qualquer palavra que pudesse dar a entender que o documento será um código de conduta para controles de capitais. Por insistência de países emergentes, o FMI também deixará claro que o documento é parte de uma iniciativa mais ampla para entender os fluxos de capitais, incluindo o papel da política monetária de economias desenvolvidas.

Do ponto de vista prático, as mudanças exigidas pelos países emergentes tornam menos provável que o documento seja usado como guia dentro do FMI para monitorar os controles de capitais nos chamados relatórios do artigo IV, em que o organismo faz uma revisão crítica da política econômica de cada uma dos seus países-membros.

Os países desenvolvidos querem que o FMI passe a monitorar os controles de capitais adotados pelos seus membros. Em geral, eles aceitam o princípio de que, em alguns casos, as economias podem lançar mão de medidas de controle para lidar com fortes fluxos de capitais. Mas querem impor restrições a esses controles e defendem que o remédio seja usado como um último recurso.

Já os países emergentes, de forma geral, não concordam com nenhum tipo de restrição nem monitoramento das suas medidas de controle de capitais.

Nas discussões dentro da diretoria-executiva do FMI, os emergentes insistiram na tese de que, se as economias avançadas querem uma espécie de código de conduta para os controles de capitais, será necessário também criar um código de conduta para monitorar as ações dos países ricos que engrossam os fluxos de capitais, como a atual expansão quantitativa feita pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

Não é a primeira vez que os países desenvolvidos tentam criar regras para os controles de capitais. Em fevereiro, eles defenderam essa posição na reunião do G-20 promovida em Paris. Naquela ocasião, eles não conseguiram levar adiante seus objetivos, porque no G-20 as decisões são tomadas apenas por consenso. Mas dentro do FMI eles têm a maioria dos votos, por isso conseguiram aprovar o documento.

A batalha travada dentro do FMI é sobretudo retórica. O organismo não pode exigir que os países deixem de adotar controles de capitais, pois esse instrumento é expressamente autorizado pelo estatuto de constituição do Fundo. Mesmo sem poder tomar medidas concretas, porém, o FMI procura influenciar as políticas de seus membros por meio de palavras.

Nas últimas décadas, o FMI pregou a abertura das contas de capitais e, em geral, se opunha aos controles. Depois da atual crise financeira mundial, porém, passou a admiti-los, como um último recurso, apenas de forma temporária. Documentos divulgados no ano passado pelos técnicos do FMI diz que as economias só devem adotar controles depois de tomadas outras medidas estruturais, como deixar sua taxa de câmbio se valorizar e promover apertos fiscais.

terça-feira, 22 de março de 2011

Blog da Christina Lemos site R7 - Artigo autoral.

Obama entre o protagonismo brasileiro e as incertezas americanas

Enviado pelo prof. Creomar Lima Carvalho de Souza*

A visita de Barack Obama ao Brasil foi cercada de uma série de expectativas e simbolismo. O primeiro aspecto a se destacar é o momento vivido pelos Estados Unidos tanto em âmbito interno quanto externo. Internamente, os resquícios da crise econômica recente, fruto da má gestão governamental, em termos de regulação das atividades financeiras e da própria estagnação dos modelos produtivos locais, não parece dar sinais de superação no curto prazo. E, se por um lado a eleição de Obama simbolizou uma retomada da esperança entre os cidadãos americanos, de outro, a aparente dificuldade da administração em implementar as mudanças prometidas durante a campanha aumenta a pressão sobre o presidente por resultados e dá combustível à oposição no questionamento das decisões tomadas.
Essas várias frentes de confrontação interna podem explicar o conservadorismo com o qual os Estados Unidos têm levado sua política externa, estratégia cautelosa para não abrir mais trincheiras no plano político interno. Diante desse quadro, o país busca renovar parcerias tradicionais e buscar novas e estratégicas, prova disso têm sido as manifestações do presidente Obama, que nega o papel de dar solução solitária de crises internacionais. O reforço, portanto, a determinadas instâncias multilaterais não surge da crença nas mesmas. Ao contrário, nasce da percepção de que novas aventuras internacionais aumentam as desconfianças com relação aos EUA e também fazem subir a pressão sobre o orçamento nacional, prejudicando o contribuinte e provocando resultados eleitorais indesejados.
A preocupação maior dos Estados Unidos parece ser, portanto, antes evitar que o sistema internacional aumente as pressões sobre a sua política externa do que, efetivamente, fazer avançar o rearranjo de forças. Isso explicaria a rejeição velada em considerar o Brasil uma liderança no Sistema Internacional. O Brasil reconhece a liderança americana e reclama de forma justa o reconhecimento por parte de Washington do protagonismo brasileiro que vem se consolidando nos últimos anos.
No imaginário dos tomadores de decisão do Brasil, reclames históricos como a necessidade de reformular organismos internacionais – como o Conselho de Segurança das Nações Unidas – são cada vez mais inadiáveis. Porém, por não ser uma potência global consolidada, o Estado Brasileiro, de certa forma, necessita do endosso de outros atores para suas pretensões. O fato de a Casa Branca apoiar ambições semelhantes de outros atores – caso do endosso de Obama a uma vaga para Índia como membro permanente no Conselho de Segurança, pode indicar que o Brasil ainda não é o parceiro estratégico no tabuleiro político que os EUA vêm buscando.
Conclui-se que os EUA ainda possuem bastante dificuldade em lidar com o surgimento de uma liderança continental que possui discurso autonomista. Isto, porém, não quer dizer que não haja um reconhecimento da crescente importância do Brasil em vários âmbitos das relações internacionais, particularmente no plano econômico e estratégico, principalmente do ponto de vista energético. Ciente disso Obama veio ao Brasil, para dar impulso material a uma relação que não pode viver de simbolismo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Entrevista Record News 3ª parte.

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Entrevista Record News 2ª parte.

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Entrevista Record News 1ª parte.

U1404417.WMV (objeto video/x-ms-wmv)

Correio Braziliense - O discurso de Obama no Brasil

Discurso de apreço por Brasil no conselho de segurança é vista como avanço

Rosana Hessel
Gabriel Caprioli

A candidatura do Brasil para um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) segue sem o apoio da maior potência global, os Estados Unidos. Em novembro, ao visitar a Índia, o presidente norte-americano, Barack Obama, endossou a reivindicação do país, idêntica à brasileira. No sábado, quando esteve em Brasília, Obama limitou-se a uma declaração oficial de “apreço” à aspiração do Brasil. Ao contrário do que possa parecer, porém, isso não provocou grande frustração, segundo especialistas em relações internacionais. De um lado, os Estados Unidos avançam um passo em direção ao apoio. De outro, a diplomacia brasileira adapta o discurso das expectativas. “O Brasil é a favor da reforma do Conselho em primeiro lugar, depois de sua candidatura”, afirmou o assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.

Luiz Felipe Lampreia, que foi ministro das Relações Exteriores no governo Fernando Henrique Cardoso, analisou o discurso do presidente norte-americano de forma otimista. “Os Estados Unidos nunca havia sido tão incisivos”, disse ontem o ex-diplomata logo após sair do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Na avaliação de Lampreia, houve uma guinada nos rumos da diplomacia brasileira com o governo Dilma Rousseff em relação ao antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Ele acredita em grandes avanços nas relações entre Brasil e Estados Unidos. “Lula tomou decisões polêmicas e acho que os EUA optaram por passar por cima disso ao demonstrar simpatia à candidatura do país ao Conselho”, completou.

Para o sociólogo Demétrio Magnoli, a declaração do presidente norte-americano passou longe de decepcionar. “Obama foi além da expectativa razoável”, disse. Ele destacou que a política externa de Lula só afastaou o Brasil do Conselho de Segurança, sobretudo pela aproximação com ditadores. “O Brasil tem conquistado notoriedade no cenário geopolítico global com o crescimento econômico”, adicionou, o que credencia a reivindicação brasileira. “O Conselho é hoje anacrônico, reflete um mundo de quando ele foi criado, em 1945”, criticou o sociólogo. Segundo ele, a entrada de mais países, como Japão, Alemanha, Índia e Brasil, é mais do que razoável e nós temos chances de alcançar esse objetivo. “No entanto, o Brasil tem de romper vários obstáculos”, afirmou.

Discurso no Itamaraty
No sábado, em almoço no Itamaraty, ao falar para empresários e políticos, Obama disse ser favorável à reforma da instância da ONU, mas não declarou apoio na forma incisiva que esperava parte da diplomacia brasileira. O Conselho tem 15 membros. Apenas cinco são permanentes e com direito a veto: Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China. Os demais são rotativos e têm mandatos de dois anos.

O ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Roberto Abdenur está entre os que esperavam claro apoio norte-americano a vaga no Conselho de Segurança. Mas tampouco se decepcionou. “Uma declaração mais forte teria sido o ideal. Mas, do ponto de vista diplomático, o foi bastante representativo. É um avanço considerável”, afirmou. “O apoio para um trabalho na reformulação do Conselho é um compromisso importante dos EUA”, completou.

Os recados dados pelos presidentes Dilma e Obama vão além do pedido de apoio pela conquista de uma cadeira permanente, segundo o professor de relações internacionais do Ibmec-DF Creomar Souza. “Eles simbolizaram o anseio do Brasil em obter o reconhecimento de seu potencial político e econômico por parte de um dos maiores atores do cenário internacional”, avaliou.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Entrevista Almanaque Band News - Visita de Obama ao Brasil

U303962.wma (objeto audio/x-ms-wma)

Visita de Obama ao Brasil - Agência Leia

PERSPECTIVA MUNDO:Visita de Obama ao Brasil terá poucos resultados práticos

Por Ivan Ryngelblum / Agência Leia

São Paulo, 11 de março de 2011 - A visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao Brasil nos dias 19 e 20 de março representa o reconhecimento, por parte do governo americano, da importância política e econômica que o país alcançou ao longo dos últimos anos, principalmente durante o mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva. Mas, em termos práticos - políticos e econômicos - a visita de Obama trará poucas mudanças e decisões a respeito de temas delicados na relação bilateral dos países.

Segundo especialistas ouvidos pela Agência Leia, a vinda de Obama não ajudará a resolver questões pendentes entre os dois países, como a sobretaxa que o biodiesel, o suco de laranja e o algodão brasileiro pagam ao entrarem no mercado americano, além do apoio norte-americano para tornar o país um membro fixo, com direito a veto, no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

"A vinda do Obama reflete a importante posição que o Brasil tomou no cenário internacional. O país se tornou protagonista e é cada vez mais ouvido pelos atores internacionais. Os Estados Unidos não podem ignorar isto", afirma o professor de relações internacionais da faculdade Ibmec de Brasília, Creomar Lima de Souza. "Os Estados Unidos veem o Brasil como uma poderosa nação emergente, com um sistema político forte e estável, e como uma potência econômica que vem crescendo", disse o professor de História da Universidade Vanderbilt, dos Estados Unidos e diretor executivo da Associação de Estudos Brasileiros, Marshall Eakin.

A expectativa é que a comitiva americana - que deve passar somente por Brasília e Rio de Janeiro - assine alguns acordos comerciais e de cooperação. "Serão tratados temas tradicionais das relações internacionais. Deve ser assinado um acordo de intenções relativo ao comércio bilateral. Ou seja, não formaliza nada, a não ser que existirão futuras reuniões para tratar do tema", projeta a professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Cristina
Pecequilo.

"Questões delicadas como a do algodão e a sobretaxa em relação ao etanol até podem ser levadas para as reuniões. Mas não necessariamente elas serão solucionadas, pois não depende apenas de Obama. O Congresso norte-americano possui bastante força nesses assuntos", afirma o professor Creomar Lima de Souza. Em relação ao etanol brasileiro, é ainda mais
improvável que haja uma resolução, uma vez que a base eleitoral de Obama encontra-se no estado de Illinois, grande produtor de etanol à base de milho. "O lobby do setor agrário é muito poderoso nos Estados Unidos, por isso é improvável que o presidente Obama esteja disposto a retirar os subsídios dos fazendeiros de milho em um futuro próximo, dada a sua difícil situação política no Congresso", completa o professor Eakin.

"Apesar das eleições presidenciais serem apenas em 2013, a corrida já começou. Então, qualquer acordo de abertura, que poderia impactar a economia americana será evitado", afirma a professora Cristina Pecequilo. "O Brasil não deve criar expectativas quanto a uma liberalização. O discurso que ele fizer sobre a abertura do mercado americano para produtos brasileiros não vai se concretizar. Ele quer abrir o mercado brasileiro para produtos americanos", completa.

Conselho de Segurança

Além dos pontos econômicos, deverá surgir nas reuniões entre os integrantes do governo da presidente Dilma Rousseff e de Obama a questão da reforma do Conselho de Segurança da ONU, que propõe a inclusão de novos membros permanentes, entre eles o Brasil. Atualmente, apenas cinco países, junto com os Estados Unidos, são membros fixos e possuem direito a veto: França, Reino Unido, Rússia e China. O Brasil é membro rotativo e atualmente ocupa sua presidência.

O tema é uma das prioridades da diplomacia brasileira, mas os americanos não deverão apoiar as pretensões do Brasil. "Embora Obama possa ser simpático às pretensões do Brasil por um assento permanente no Conselho de Segurança, este é um tema difícil. Mudar a composição dos membros fixos cria um campo minado político, como o que fazer a respeito das aspirações de outros potenciais emergentes", explica Eakin.

"A diplomacia americana não possui uma posição fechada a respeito do assunto. Existem reticências em apoiar a entrada do Brasil. Se o Brasil entrar no Conselho, ele ganhará muito poder em uma região onde os americanos possuem bastante influencia. Os Estados Unidos toleram a entrada de India e Japão no Conselho apenas como política para conter a influencia de China e Rússia na Ásia", explica a professora Cristina. O governo Obama já manifestou apoio à entrada da India no Conselho, mas não do Brasil.