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quinta-feira, 8 de março de 2012

Síria: agonia do regime e o nascimento de uma nova nação.

Os altos custos econômicos e sociais do conflito relacionam-se cada vez mais à luta travada entre as grandes potências e os poderes regionais sobre o futuro do país. Historicamente, nos momentos em que a Síria encontra-se unida e estável, ela representa um importante ator regional, mas quando está dividida, como agora, torna-se uma arena para a luta de forças externas, muito embora a revolta tenha se originado exclusivamente no seio de sua sociedade. O artigo é de Reginaldo Nasser.

Reginaldo Nasser (*)

Há um ano teve inicio a revolta na Síria que se tornou o episódio mais trágico, polêmico e incerto das revoltas árabes. Os altos custos humanos, econômicos e sociais do conflito relacionam-se cada vez mais à luta estratégica travada entre as grandes potências e os poderes regionais sobre o futuro do país. Historicamente, nos momentos em que a Síria encontra-se unida e estável, ela representa um importante ator regional, mas quando esta dividida e instável, como agora, torna-se uma arena para a luta de forças externas, muito embora a revolta tenha se originado exclusivamente no seio de sua sociedade.

Ao comparar o regime político da Síria com o de outras repúblicas árabes, é notável suas diferentes características: uma política externa mais congruente com a opinião pública (de forma retórica ou não), forças de segurança mais leais ao governo, uma sociedade civil mais fraca e uma oposição mais fragmentada. Talvez por isso mesmo a resposta inicial do regime frente às manifestações foi misturar repressão, ao condenar os manifestantes como parte de uma conspiração estrangeira, com tentativas tradicionais de apaziguamento e de cooptação.

Para o regime e seus aliados, a sociedade na Síria é imatura e suas tendências sectárias só podem ser contidas por uma estrutura de poder fortemente centralizada. Nesse sentido, remover Bashar é permitir a guerra civil e a hegemonia de poderes islâmicos apoiados pela Arábia Saudita e seus aliados ocidentais. Na verdade, essa estratégia - dividir para reinar - foi herdada do colonialismo, que já alimentava as fraturas na sociedade com o receio de que pudessem vir a sustentar um novo sentimento democrático verdadeiramente nacional.

É preciso reconhecer que nem todos os alauitas apóiam o governo. Alguns setores como intelectuais e camponeses ressentem-se com a forma que sua comunidade tem sido instrumentalizada pelo regime. Cristãos, que estão geograficamente dispersos, adotam pontos de vista extremamente diferentes.
Os que estão em Damasco e Alepo, em geral, apóiam o governo, mas em muitas outras áreas, os cristãos revelaram simpatia com os manifestantes. Os Ismaelitas, com sede na cidade de Salamiya, estavam entre os primeiros a aderir à oposição. Também não são todos os sunitas que protestam contra o governo, como por exemplo as tribos Shawaya no nordeste do pais.

Mais do que uma questão étnica, religiosa ou mesmo geográfica o conflito deve ser visto como um fenômeno de mudanças da base social do poder do governo Bashar.

O golpe que levou ao poder uma nova elite composta por oficiais militares foi moldado por suas origens rurais nas lutas sociais dos nacionalistas da década de 1960, resultando numa simbiose entre o partido Baath e as forças armadas (da seita alauita). Isso sempre provocou ressentimento entre a maioria da comunidade sunita, mais especificamente, nos setores comerciais urbanos representados pela Irmandade Muçulmana. As rebeliões urbanas, incluindo a insurreição que abalou as cidades do norte no início dos anos 1980 é um reflexo disso. Depois desse episódio, proliferaram as agências de inteligência para proteger o regime, os quais se mantinham leais por meio da tolerância de suas práticas corruptas. Hafez al-Assad usou e abusou de uma política externa nacionalista (árabe), como um Estado de linha de frente com Israel, para obter ajuda dos paises do Golfo Pérsico e da União Soviética.

Mas com o fim da Guerra fria a ajuda externa diminuiu consideravelmente, provocando fortes impactos na base fiscal do Estado e fazendo com que suas vulnerabilidades econômicas viessem à tona, apesar das receitas provenientes das reservas de petróleo que também diminuíram no final da década de 90. A legitimidade política derivada do "contrato social" pelo qual o regime proporcionava alimentos subsidiados e emprego para as classes média e baixa entrou em crise, dando inicio a uma política de austeridade com o congelamento dos benefícios sociais e redução do poder aquisitivo dos funcionários públicos. Os gastos do governo caíram de forma pronunciada (de 50% para 25% do PIB). Nesse contexto o regime pode manter um equilíbrio precário entre os seus antigos aliados e recém-emergentes burgueses apelando, para a necessidade de um novo consenso

Buscando consolidar o poder dentro do regime que herdou de seu pai, Bashar viu enfraquecida a sua capacidade de sustentar seu poder sobre a nova base de apoio social. Ao mesmo tempo a legitimidade nacionalista de política externa já não era capaz de se conciliar com a identidade nacionalista árabe, no conflito com Israel, com a integração da Síria na economia mundial. Mas quando o regime parecia mais vulnerável e isolado, Bashar deslocou o comércio exterior da Síria para China, Irã, Turquia e países do golfo. Em 2005, a Síria aparecia como o quarto maior país beneficiário do investimento árabe. O investimento estrangeiro direto passou de US$ 111 milhões em 2001 para US$1,6 bilhão em 2006.

Essas ações proporcionaram alivio econômico para as contas do governo, mas resultaram em uma mudança significativa da base social de sustentação do regime que passou a transferir suas responsabilidades de proteção social e de criação de empregos para instituições privadas, respondendo à demanda da nova elite. As terras do Estado foram vendidas para os novos investidores, o que resultou na elevação do custo da moradia e, consequentemente, no crescimento de bairros pobres em torno das cidades.

Não por acaso nas principais cidades, Damasco e Aleppo, onde o boom de investimentos, o aumento do turismo e do novo consumo se concentraram, o governo foi capaz de mobilizar demonstrações de apoio importantes, embora tenha ocorrido revoltas em seus arredores. A classe média dessas cidades via inicialmente Bashar como o protetor da ordem, preferindo a estabilidade aos riscos de democratização que pudesse trazer a guerra civil e a perda de seu estilo de vida moderno. Mas, a partir do momento que o regime mostrou sua incapacidade de manter a segurança, passou a criar desconfiança entre alguns de seus aliados.

Dificilmente o regime irá sobreviver a esta crise, que pode assumir novos e perigosos contornos. Os manifestantes, cada vez mais desesperados, devido a brutal repressão, se submetem a qualquer tipo de ajuda exterior sem pesar o custo de certas alianças políticas que poderá desfigurar aquilo que apareceu como a maior ameaça ao governo: amplo movimento democrático autônomo exigindo profundas mudanças políticas e econômicas. Entretanto, ao tratar todo e qualquer manifestante como inimigo, Bashar forjou contra si mesmo uma coligação (interna e externa) muito grande.

Apesar de o regime de Bashar revelar sinais de esgotamento a economia do país não vai entrar em colapso no curto prazo. A Síria não esta completamente isolada e continua o comércio com Iraque, Jordânia, Irã, Rússia e China. Alguns bancos do Líbano são susceptíveis de agir como um paraíso para o dinheiro sírio. Quase todos os clássicos ingredientes para ocorrer uma revolução podem ser notados na Síria: crescimento demográfico, mobilização social, estagnação do desenvolvimento econômico, déficit fiscal crônico, aumento da desigualdade social e repressão política. Falta, entretanto, outro elemento necessário que abreviaria o final do regime: divisão das forças armadas.

Muito embora não se possa prever se, e quando, o regime de Bashr vai cair e muito menos quem serão os vencedores, cito aqui o velho ditado lembrado pelo prof Hamid Dabashi, que a partir de agora deverá ser válido para a Síria: você pode conquistar uma terra a cavalo, mas você deve descer para governá-la. Ou seja, quando os “novos conquistadores” tomarem o poder estarão de frente para uma nação que dificilmente será ludibriada ou amedrontada.

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Carta Maior - O Irão e o Oriente Médio.

O cerco ao Irã

Todo o alarde por parte dos EUA e Israel é insustentável e serve para camuflar aquilo que realmente é motivo de preocupação: a crescente importância estratégica do Irã e sua liderança na região do Grande Oriente Médio. Longe de ser o arauto do apocalipse, o sonho do Irã, que sempre foi um "ator racional", é alcançar a hegemonia regional. Por quais motivos o Irã poderia ser convencido a suspender o enriquecimento nuclear sem que, da mesma forma que Israel, suas preocupações com sua segurança sejam levadas em consideração? O artigo é de Reginaldo Nasser.
Reginaldo Nasser


O Departamento de Estado dos EUA declarou no final do mês de dezembro que o Irã estava manifestando "comportamento irracional" ao ameaçar fechar o estreito de Hormuz, ponto de passagem de 20% do petróleo mundial. Algo improvável já que grande parte dos 2,2 milhões barris/dia (mais de 50% de sua receita) que o Irã exporta passa pelo Estreito e sua obstrução viria causar sérios danos em sua economia que já sofre com as sanções internacionais. Na verdade, a declaração do vice-presidente do Irã, Mohammad Rahimi, foi que "não passaria uma só gota de petróleo pelo Estreito SE o Ocidente impusesse sanções sobre as exportações de petróleo de seu pais”.

Como já é de costume, quando se trata dos países rotulados como rogue-states, a questão hipotética de uma agressão dos EUA foi simplesmente suprimida na grande imprensa internacional. O que fez com que a declaração do iraniano aparecesse como uma ameaça e não como uma provável reação a um ataque. Claro que não se trata de um simples problema gramatical, mas de sim de linguagem típica de um poder hegemônico.

O Irã voltou a ser objeto de preocupação da chamada comunidade internacional – isto é EUA, Inglaterra, França e Israel - após a divulgação do novo relatório da AIEA (Agencia Internacional de Energia Atômica), no dia 8 novembro 2011, sobre a possível construção de instalações nucleares para fins bélicos, em um momento de eleições nos paises envolvidos. Em março, o Irã realiza eleições parlamentares que se espera ser um confronto entre radicais e moderados, enquanto nos EUA os candidatos do Partido Republicano nos EUA já anunciam a necessidade de bombardear o Irã ao mesmo tempo em que criticam a "fraqueza" do presidente Obama.

A grande imprensa norte-americana, como sempre, deu sua prestimosa colaboração para acionar os tambores da guerra. The Washington Post e The New York Times estamparam em sua matéria de capa, um dia após a divulgação do relatório, a informação de que os investigadores da AIEA acumularam uma coleção de novas evidências de que o Irã manifestou objetivos bélicos em seu programa nuclear. No entanto em matéria publicada na revista The New Yorker (November 18, 2011 Iran and the IAEA.) Seymor Hersch, após entrevistar uma série de especialistas sobre o tema, concluiu que as alegações básicas no relatório não continham nada substancialmente novo.

Robert Kelley, ex-diretor da AIEA, Greg Thielmann, ex-funcionário do Departamento de Estado e especialista no tema, e a organização Arms Control Association, cuja missão é incentivar o apoio público para o controle de armas de destruição em massa, observaram que a AIEA apenas reforçou o que a comunidade internacional já sabia desde 2003. Ou seja, que o relatório da AIEA apenas aponta indícios preocupantes e não há nada que indique que o Irã está realmente construindo uma bomba.

Portanto, “um Irã com armas nucleares ainda não é iminente e nem é inevitável. Aqueles que querem angariar apoio para um ataque ao Irã estão deturpando o relatório”.

Patrick Pexton, ombudsman do Washington Post, e Arthur Brisbane, editor do New York Times, responderam às objeções dos leitores, dois meses depois, concordando que, em nenhum momento a AIEA chegou a fazer uma declaração conclusiva clara. Brisbane declarou ainda que a linguagem utilizada pelo NYT estava equivocada e que o NYT deveria corrigir sua matéria porque trata-se de um caso que uma frase não faz justiça a um conjunto de nuances reveladas pelos fatos. Sendo que a distinção a ser feita é importante porque “o programa iraniano tem aparecido como um possível casus belli (ver NYT Public Editor: IAEA ‘Stops Short Of Making A Clear Conclusive Statement’ On Iran Nuke Program http://thinkprogress.org/ By Ali Gharib on Jan 10, 2012).

Na retórica de muitos políticos e comentadores americanos e judeus, a República Islâmica do Irã é retratada como um regime que não pensa sua política externa em termos de interesses nacionais. Invocam cenários apocalípticos de um pais inclinado a usar armas nucleares contra alvos israelenses ou europeus, sem se importar com as conseqüências sugerindo que o Irã aspira, na verdade, à autodestruição. Pois é suficientemente conhecida a capacidade militar de Israel. Aliás, como já observou o analista do Air Force Research Institute, Adam Lowther, não apenas os judeus, mas os palestinos teriam razão de sobra para preocupação, porque um ataque nuclear contra Israel iria devastá-los também.

Na verdade todo esse alarde por parte dos EUA e Israel é insustentável e serve para camuflar aquilo que realmente é motivo de preocupação: a crescente importância estratégica do Irã e sua liderança na região do Grande Oriente Médio. Longe de ser o arauto do apocalipse, o sonho do Irã, que sempre foi um "ator racional", é alcançar a hegemonia regional. Nos últimos oitos anos, o Irã construiu uma enorme rede de influência com xiitas e sunitas após os EUA derrubarem seus dois principais inimigos: o Talebã no Afeganistão e Saddam no Iraque; consolidou suas alianças com Hamas e Hezbollah, legitimados por seus êxitos eleitorais, tornando-se peça decisiva na Palestina e no Líbano.

No mesmo mês em que o relatório da AIEA foi publicado, os EUA anunciaram a assinatura de um acordo de venda de armas, munições, peças de reposição, treinamento de pessoal militar com a Arábia Saudita no valor de $30 bilhões. De acordo com oficial do Departamento de Estado, Andrew Shapiro, "essa venda irá enviar uma forte mensagem aos países da região que os Estados Unidos estão comprometidos com a estabilidade no Golfo e Médio Oriente." Cabe lembrar ainda a fala do príncipe Turki al-Faisal (chefe de inteligência na Arábia Saudita ) em reunião ocorrida em uma base militar da OTAN no Reino Unido (os documentos foram revelados pelo Wall Street Journal 22/07/2011) que "o Irã é muito vulnerável no setor de petróleo, e é nele que mais poderia ser feito para coagir o atual governo”. Argumentou que “a Arábia Saudita tem plena capacidade de produção [reposição] de quase 4 milhões de barris/dia - que poderíamos quase instantaneamente substituir toda a produção de petróleo do Irã”.

Qualquer que seja o perfil de uma nova ordenação nuclear esta deverá ser o resultado da interação dos motivos pelos quais um Estado persegue a energia nuclear, a legitimidade das restrições e, principalmente, que o país possa ter sua segurança garantida. Assim, é compreensível que Israel não vai desistir de suas armas nucleares (elemento de dissuasão) até que as suas preocupações mais amplas de segurança sejam resolvidas (e talvez nem assim). Mas por quais motivos o Irã poderia ser convencido a suspender o enriquecimento nuclear sem que, da mesma forma que Israel, suas preocupações com sua segurança sejam levadas em consideração? (Stephen Walt, A non-proliferation puzzle. S Foreign Policy , May 6, 2010).

Portanto, a polêmica questão nuclear envolvendo o Irã só poderá ser realmente discutida se a comunidade internacional vinculá-la ao processo de paz na região. Por falar nisso, onde estão Brasil e Turquia que exerceram papel fundamental de mediadores da crise com Irã, em 2010, impedindo uma ação militar que parecia iminente?

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC (SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Estado Palestino – Possibilidade em meio à intolerância

Por: Otoniel Otoni

Mais uma vez a cena se amplia para abarcar nova crise entre palestinos e judeus. Essa semana, a Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU) será palco de novos atos desse espetáculo perene protagonizado, por um lado, por líderes praticantes da intolerância como estratégia para a construção de supostos interesses coletivos, os quais, não raro, se apresentam com delineamento fortemente manipulado, e, por outro lado, por atores da cena política ocidental, ávidos pela satisfação de interesses comerciais e de dominação.
Assistir ao espetáculo e tomar partido de um dos lados é atitude comum aos integrantes da Academia, da mídia e a todos os envolvidos ou interessados no tema. Afinal, todo fato gerador de disputas produz o surgimento de torcidas, organizadas ou não, espontâneas ou induzidas.
Entretanto, entender o contexto e suas implicações requer muito mais que títulos acadêmicos ou aptidão jornalística. Requer um conhecimento além do real em seu fundamento etéreo, cronologicamente tão distante quanto a história pode alcançar, ideologicamente tão complexo quanto a ficção política pode criar e religiosamente tão doutrinário quanto os dogmas podem produzir.

O resgate histórico

Dessa forma, importa, para melhor entendimento da questão, empreender a busca das raízes históricas milenares dos povos judeus e dos árabes, nesses últimos integrados os palestinos.
Para tanto, faz-se necessária uma regressão temporal de mais de 4 mil anos, até cerca do ano de 2.220a.C., quando começa a saga e a peregrinação do personagem bíblico Abraão, responsável pelo início do processo de formação do povo judeu, processo esse a se arrastar por cerca de um milênio, com a sucessão de diversos líderes notáveis, e a resultar na criação de uma nação teocrática na costa oriental do Mar Mediterrâneo.
Curiosamente, o primeiro na linhagem judia, Abraão, se torna o primeiro na linhagem árabe. Tal paralelismo se verifica a partir dos filhos do patriarca; o primogênito, Isaque, filho de Abraão com Sara, e o segundo, Ismael, filho de Abraão com Hagar, sua escrava. Sem entrar em detalhes de dimensões enciclopédicas, destaque-se a associação, aos dois garotos, de promessas divinas de origem de duas grandes nações, a derivar daí o povo judeu, originário de Isaque, e o provo árabe, originário de Ismael.
A circunstância em que se deu o surgimento de árabes e judeus e a sua determinística separação como povos inimigos encena a manifestação da intolerância de forma permanente entre Isaque e Ismael, em conflito desde a infância, protagonistas de uma briga de família hoje representada pelo conflito árabe-israelense.
Inicialmente, a superioridade judaica de origem, determinada pela descendência escrava de Ismael, bem como a fé em um Deus exclusivo (Jeovah), relegava os povos árabes a uma condição desfavorável. Porém, quase 2 mil anos depois da criação do Estado judeu, surge a figura do profeta Maomé, por meio do qual se dá a criação e a implantação do islamismo, fator de fortalecimento e união árabe.
A fé religiosa é determinante no comportamento dos dois povos, com o fanatismo e a intolerância a proporcionarem fases de violência, invasões e massacres de lado a lado.

O contexto contemporâneo

O resgate do período mais recente, necessário para o entendimento do contexto atual, retoma a cronologia em 1948, com a restauração do Estado judeu em parte do território historicamente ocupado.
A fragilização do povo judeu, a partir do extremo sofrimento imputado pela guerra e pela morte de cerca de 6 milhões, favoreceu a votação da ONU para a criação do Estado nacional em área então dominada pela Inglaterra como possessão.
A falta de entendimento para a criação simultânea do Estado palestino produziu situação de inevitável descontrole e previsíveis conflitos, na qual a população de árabes da área transformada em Estado Judeu passou, de um momento ao outro, de nativos seculares a habitantes de um território inimigo, produzindo e exacerbando o ideal separatista e de estabelecimento de um Estado próprio.
A partir de então, o Estado Palestino vem sendo reclamado diuturnamente, embora O contexto de comoção mundial, aliado a motivos de dominação regional pelo ocidente, estabeleceu condições desiguais no âmbito das Nações Unidas nas tratativas das questões relacionadas ao Oriente Médio. Os Estados Unidos, com população judaica influente e poderosa, a partir da sedimentação do cenário da Guerra Fria, surge, estrategicamente, como aliado e protetor de Israel.
A partir de então, o Estado Palestino vem sendo reclamado diuturnamente, embora sem perspectiva de concretização, haja vista a pouca vontade política para soluções que favoreçam povos árabes, em especial os palestinos. Afinal, a nação palestina já está consolidada de longa data e organizada como Estado em bases suficientes, como estava Israel em 1948. Falta, então, apenas o reconhecimento internacional e a sua aceitação como membro da ONU.

Iniciativas para o reconhecimento

Agora, o mundo assiste assustado à decisão da Autoridade Nacional Palestina de solicitar formalmente, na reunião da Assembléia Geral da ONU, a ser realizada na próxima semana, o reconhecimento do Estado Palestino como membro oficial daquele organismo multilateral.
A coerência, o bom senso, a parcimônia, a isonomia, o respeito, são princípios a reclamar apoio à iniciativa palestina. Entretanto, o interesse parcializado dos países dominantes produzem posicionamentos contrários á pretensão palestina, os quais têm por finalidade a modelagem do melhor cenário para seus interesses próprios, em detrimento da cooperação e do bom relacionamento entre as nações, a resultar, em última análise, em um deterioramento nos laços unificadores da comunidade internacional.
Ao anúncio da intenção palestina junto à ONU, reações imediatas se fizeram ecoar por todo o globo, alertando para os riscos. O Primeiro Ministro de Israel, representante do inimigo eterno, já tem programado seu discurso contrário e sectário a ser proferido na sessão que deverá tratar o tema. Emissários ocidentais apressaram-se na tentativa de promoverem a desistência da intenção de reconhecimento. Mas, como convencer uma nação já organizada como Estado a não pleitear o justo reconhecimento? Como atingir esse convencimento apresentando como alternativa condicionante a negociação com Israel? Não deve ser levado a sério quem apresenta como alternativa de solução a sujeição do pretendente à condição de refém do inimigo.
Como fator complicador do contexto e fragilizador dos argumentos ocidentais, se faz presente a atual onda de movimentos populares árabes, indutora da derrubada de regimes autoritários para a ascenção ao poder de supostas lideranças de tendências políticas nem sempre definidas, não legitimadas localmente, algumas de origem violenta e transgressora, para as quais a ONU antecipa a iniciativa do reconhecimento como representantes nacionais, a exemplo do chefe tribal elevado à condição de representante oficial da Líbia.
O posicionamento final da ONU sobre a pretensão de reconhecimento palestino parece já estar previamente definido e anunciado como denegatório, com o uso do poder de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança, se necessário.
A esse respeito, importa perceber a natureza autoritária e contraditória dessa lógica, a qual pode ser considerada o avesso do princípio democrático tão defendido pelo moderno mundo ocidental. É regra geral, em instituições democráticas, a existência de conselhos para tratar de assuntos específicos. Entretanto, diante de impasses ou inviabilidade de decisões no seu âmbito, os assuntos são submetidos à Assembléia Geral, detentora do poder maior. Na ONU, ocorre o contrário, com as decisões da Assembléia Geral sendo suplantadas e anuladas pelo poder maior do Conselho de Segurança.
Quiçá, na votação do pleito palestino, a Assembléia Geral, em sua maioria, apóie a iniciativa, se não de forma prevalecente, para forçar o Conselho de Segurança a lançar mão, mais uma vez, do instituto antidemocrático do veto, pois, como resultado, o Estado Palestino poderá passar a ter potencializada a sua legitimação pela maior parte dos Estados membros e o ato do Conselho, ou seja, o veto, poderá contribuir para a consolidação da sua condição de não confiabilidade e fortalecer a corrente pró reforma institucional da ONU.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Folha de São Paulo - Oriente Médio.

Terrorismo, islã e a democracia árabe
HUSSEIN ALI KALOUT

Os atentados terroristas da Al Qaeda constituem o maior desserviço que Bin Laden poderia prestar ao mundo islâmico e ao mundo árabe


A morte de Osama bin Laden, líder da rede de terrorismo Al Qaeda, representa o cumprimento de um objetivo político com forte sentido simbólico para a sociedade global, em especial para a norte-americana. A estrutura piramidal da Al Qaeda, com Bin Laden no cume, foi sendo desmantelada e fragmentada em células autônomas e desorganizadas, que estão espalhadas pelo mundo muçulmano.
A paralisia da organização decorre, em boa medida, do rastreamento e do bloqueio dos recursos financeiros da rede, o que limitou sua capacidade operacional.
Entretanto, a problemática do terrorismo internacional não se equaciona na eliminação de Bin Laden. Sua morte não levará ao fim do fundamentalismo islâmico.
A emergência do extremismo e do radicalismo no mundo muçulmano é oriunda da pobreza, da exclusão e da marginalização social.
Por outro lado, os atentados terroristas da Al Qaeda pelo mundo constituíram-se no maior desserviço que Bin Laden poderia prestar ao mundo islâmico de forma geral e ao mundo árabe em particular.
Um estudo da Academia Militar em West Point (EUA) revela um dado importante: entre 2004 e 2008, 85% dos atentados terroristas foram realizados em territórios de países islâmicos. E as principais vítimas do terror fundamentalista foram os próprios muçulmanos.
As recentes revoluções em prol da democracia nos países árabes marcaram o declínio da filosofia política da Al Qaeda e o fracasso do extremismo fundamentalista.
Da Tunísia à Síria, passando por Egito, Iêmen, Líbia e Bahrein, observa-se um movimento pela democracia e pela laicidade do Estado. A revolução no mundo árabe está calcada na luta pelas liberdades civis e de imprensa, na justiça social, no combate à corrupção e no fim das ditaduras hereditárias.
A luta democrática é caminho sem volta. A geração de jovens árabes exige um novo paradigma e está cansada de retóricas vazias e infundadas. O que demonstra que, ao contrário do pensamento ocidental de outrora, é possível combater o radicalismo islâmico sem a conivência com regimes totalitários.
Nas revoluções pró-democracia em países árabes não se viu invocada em nenhum momento a figura do Bin Laden. Seus simpatizantes não passam de minorias fanáticas que usam e comercializam a religião islâmica conforme suas conveniências. A morte de Bin Laden não vai repercutir na lógica das revoluções democráticas árabes, tampouco alterará a dinâmica do conflito israelo-palestino.
Os impactos principais se concentrarão em duas frentes: primeiro, na reação do extremismo islâmico no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque; segundo, no cenário político-eleitoral nos Estados Unidos.
O presidente Barack Obama assegurou sua candidatura à reeleição. Os republicanos não possuem projeto político claro nem uma figura notável para liderar o partido nas eleições presidenciais em 2012. A menos que surjam fatos inusitados, o cenário está definido.
Contudo, em torno dessa operação apresentam-se fatores preocupantes. O primeiro deles concerne às celebrações da morte do terrorista -uma provocação desnecessária e perigosa, que pode incitar o revanchismo dos radicais islâmicos. O segundo diz respeito à legalidade da ação à luz dos dispositivos do direito internacional público e do direito internacional humanitário.
A credibilidade política dessa operação exaure-se na atuação do governo americano, pautada pela tortura de presos, pela invasão da soberania de uma nação e pela execução sem direito a julgamento do terrorista. Por mais nefastos que tenham sido os seus crimes.

sábado, 12 de março de 2011

CORREIO BRAZILIENSE - DF: Crise Ameaça o Bolso do Brasileiro

Crise ameaça o bolso do brasileiro
Rosana Hessel, Sílvio Ribas

Petrobras segura o preço da gasolina e do diesel, mas já repassa a alta do petróleo para o querosene de aviação e a nafta
Rosana Hessel
Sílvio Ribas
O mundo está assustado com a possibilidade da volta da retração econômica, caso a queda da produção de óleo na Líbia se torne uma realidade nos países com as maiores jazidas, como a Arábia Saudita
A disparada nas cotações internacionais do petróleo começa a pesar no orçamento dos brasileiros. Apesar de não mexer nos preços da gasolina e do diesel, que dependem de autorização do Palácio do Planalto para serem reajustados, a Petrobras já vem repassando o aumento do barril para uma série de derivados, principalmente o querosene de aviação e a nafta petroquímica, insumo básico para a produção de diversos produtos, sobretudo as embalagens plásticas. O querosene e a nafta são revistos, respectivamente, a cada 15 e 30 dias. A situação só agrava o processo inflacionário no país, obrigando o Banco Central a acelerar a alta nos juros básicos da economia (Selic).
Dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostram que, desde a segunda metade de janeiro, quando estourou a crise no Egito, que se estendeu pela Líbia e vários países do mundo árabe, os preços do querosene de aviação acumulam alta de 7,16%, mais da metade da elevação acumulada em 12 meses: 11,99%. Segundo André Braz, economista da FGV, a tendência é de que o repasse se intensifique nos próximos meses, caso as turbulências engolfem de vez os maiores produtores de petróleo, como a Arábia Saudita, com reservas de 266,7 bilhões da barris. O resultado disso: passagens aéreas mais caras. No caso da nafta, conforme o mercado, o aumento médio ficou em 5% no mesmo período.
Segundo o vice-presidente para a América Latina da Delta Airlines, Nicolas Ferri, a apreensão é grande entre as companhias aéreas, pois o querosene de aviação representa um custo importante para o setor. “Estamos avaliando todos os cenários. O agravamento da crise será muito ruim”, afirmou. Na área petroquímica, há quem fale em reajuste de até 20% nos preços dos produtos a base de nafta. A grande pergunta é se a indústria e o comércio terão condições de repassar tal aumento aos consumidores finais. O problema, reclamam os empresários, é que o encarecimento dos derivados do petróleo veio a se somar a um encarecimento em série das commodities metálicas e agrícolas.
O Brasil é importador regular de querosene de aviação, produto cuja demanda vem crescendo rápido. Em 2010, as importações chegaram a 33 mil barris diários do produto. Quanto à nafta, as importações estão ao ritmo de 39 mil barris por dia. O país também poderá sentir altas nos preços de outros produtos que saem das refinarias, como o óleo combustível usado nas fábricas e pelos navios (bunker).
Ontem, depois de alcançar a máxima de US$ 119,79 em Londres, o barril tipo Brent encerrou o dia em US$ 111,36, com alta de 0,1%. Nos Estados Unidos, o dia foi de muita pressão, diante das tentativas do mercado de descobrir se outros países podem compensar a queda da produção líbia. Na New York Mercantile Exchange (Nymex), o barril de West Texas Intermediate (WTI) para entrega em abril fechou a US$ 97,28, em baixa de 0,9%. Segundo Tom Bentz, do Banco BNP Paribas, o recuo se deu depois que a Arábia Saudita garantiu que suprirá a redução da produção da Líbia. Em julho de 2008, o valor do barril do Brent chegou a US$ 147, mas, no fim daquele ano, após a quebradeira de bancos e de várias economias, inclusive europeias, recuou para US$ 37.
Especulação
Vários operadores alertaram para os movimentos especulativos no mercado com o óleo. “Há muita distorção tanto no preço do petróleo quanto nos das commodities agrícolas. Tem muito investidor comprando contratos de petróleo só para aumentar a demanda e obter lucros no curto prazo”, alertou o economista da Prosper Corretora, Demetrius Borel Lucindo. Ele ressaltou ainda que, ao manter o preço da gasolina 4% abaixo do praticado no mercado externo, a Petrobras já acumula perdas superiores a R$ 200 milhões.
Para José Luís Oreiro, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), mantida a escalada do preços do petróleo, o risco de uma nova recessão global é grande. É que a inflação tenderá a subir, obrigando os bancos centrais a elevarem os juros, abortando a ainda frágil recuperação econômica dos Estados Unidos e da Europa. “O risco de uma nova recessão é considerável ainda neste começo de ano por, pelo menos, dois trimestres seguidos”, disse.
Na avaliação do diretor de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Thomaz Zanotto, é cedo para fazer estimativas. Mas os empresários estão atentos para a crise política, sobretudo na Líbia, grande fornecedora de petróleo para a Europa. “Se ela continuar, o risco de uma recessão acompanhada de inflação (estagflação) no mundo é muito grande, e isso seria o pior cenário possível”, destacou. (Colaborou Gustavo Henrique Braga)
Em Nova York, tensão em torno da cotação do barril afeta investidores
Pressão sobre BCs mundiais
Começam a ser divulgadas as primeiras estimativas de impacto da alta dos preços internacionais de petróleo na inflação, jogando a pressão dos reajustes nas taxas básicas de juros pelos bancos centrais. Segundo a consultoria Fathom, se o preço do barril tipo Brent estacionar em US$ 120, a taxa britânica de inflação ganharia 0,48 ponto percentual. Nos Estados Unidos e na Europa, o acréscimo seria respectivamente de 0,51 e 1,63 pontos. Mas, caso o patamar seja de US$ 150, o impacto iria ao dobro. Analistas internacionais veem um sério dilema para os governos dos países desenvolvidos: de um lado, a tentativa de evitar a disparada dos preços domésticos; do outro, a busca da retomada do crescimento.
Medo de uma nova recessão
Os mercados internacionais continuaram repercutindo ontem o medo de que os tumultos nos países árabes interrompam a incipiente retomada da economia global. As altas recordes nas cotações do petróleo ampliaram as incertezas, especialmente sobre Europa e Estados Unidos, altamente fragilizados por problemas fiscais e ameaças inflacionárias.
As principais bolsas do mundo registram o quarto dia de perdas. No Brasil, as ações ordinárias (com direito a voto) da Petrobras recuaram 1,82% e as preferenciais, 1,18%. A pressão foi reduzida no fim do pregão, deixando para trás os picos recordes desde agosto de 2008. Outras nações produtoras foram indicadas para compensar perdas de produção registradas na Líbia. Os investidores esperam resposta da Arábia Saudita, principal produtora na Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). Os sauditas já conversam com refinadores europeus.
Para tentar administrar expectativas negativas, a Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou que, até agora, apenas 750 mil barris diários – menos de 1% do consumo global – foram tirados do mercado em razão da crise. Um dia antes, porém, o próprio organismo afirmou que as altas do petróleo ameaçavam a recuperação de economias desenvolvidas e emergentes. A AIE tem 1,6 bilhão de barris de reservas petrolíferas de emergência à disposição para momentos de crise.
Cenário
A Casa Branca também reforçou a ponderação, anunciando ter capacidade para agir em caso de uma grande interrupção no abastecimento de petróleo provocada pelos confrontos no Oriente Médio. Os estoques de petróleo nos EUA subiram 822 mil barris semana passada, para 346,74 milhões de unidades.
Aliada à queda na oferta do produto, devido a uma perpetuação da suspensão da produção da Líbia, a alta nos preços poderá desencadear nova crise, analisou o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Helder Queiroz. Já para o analista político do Ibmec-DF Creomar Lima Carvalho de Souza uma crise econômica será provável se o petróleo continuar a subir. “A Líbia responde por 15% da demanda de petróleo da Europa. Se a energia ficar cara, a economia vai reagir mal”, avaliou. (RH e SR)
Kadafi faz ameaça
Importantes terminais petrolíferos da Líbia localizados a leste de Trípoli estão sob o controle de rebeldes contrários ao presidente Muamar Kadafi, disseram moradores de Benghazi que conseguiram fazer contato com pessoas na região. O ditador líbio disse que essa ocupação reduzirá a oferta de petróleo no mundo. Por ora, os volumes exportados pelo país permanecem próximos da normalidade.

quinta-feira, 3 de março de 2011

CORREIO BRAZILIENSE - DF: Dependência do petróleo põe mundo em alerta

A crise que tomou conta do mundo árabe e já apeou do poder ditadores e criminosos faz o mundo abrir os olhos para um problema que insiste em se manter no limbo: a grande dependência por petróleo, altamente poluente e cujas reservas estão concentradas no Norte da África e no Oriente Médio e são manipuladas pelo cartel representado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Em 1973, a economia global foi abalada pela guerra do Yom Kippur. Em 1979, o baque veio da Revolução Iraniana. Agora, bastou o corte na produção da Líbia, que responde por apenas 2% da oferta mundial, para que os preços do barril disparassem 14% em apenas uma semana, a maior alta para o período em dois anos. Resultado: os países ricos, sobretudo os da Europa e os Estados Unidos, que ainda mostram sinais frágeis de recuperação, voltaram a flertar com a recessão.

Apesar desse quadro tão sombrio, poucas foram as vozes que chamaram a atenção para a necessidade de se livrar da Opep e de se mudar, mais rapidamente, a matriz energética do planeta, optando-se por fontes limpas e renováveis. Dados da agência americana Energy Information Administration mostram que 56% da energia consumida no globo têm origem no petróleo (35%) e no carvão (21%). Menos poluente, o gás natural garante 21% do consumo. Já as fontes renováveis não passam de 8%. Para inverter esse quadro, pelas projeções da Agência Internacional de Energia (AIE), o mundo terá que investir aproximadamente US$ 10,5 trilhões até 2030.

Ou seja, não há mais como optar pelo silêncio. "É importante que esses temas, o da redução da dependência do petróleo e o da sua substituição por energia limpa e renovável, sejam retomados pelos governos e não mais abandonados", diz Creomar Lima Carvalho de Souza, professor de Relações Internacionais do Ibmec do Distrito Federal. Ele lembra que o mundo perdeu uma grande oportunidade para mudar a história, ao não avançar nas negociações para a redução das emissões de CO2 realizadas em Copenhague, no fim de 2009.

Naquele momento, em meio à recessão global, com o consumo e o preço do petróleo em baixa (depois de chegar a US$ 145 o barril, em junho de 2008), os países mais industrializados e, consequentemente, os maiores poluidores do planeta, estavam mais preocupados em sair da crise financeira na qual se meteram depois do estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos, do que investir pesado na busca de alternativas para os combustíveis de origem fóssil. "Os governantes têm esse comportamento previsível. Só pensam em alternativas em momentos de crise. No ambiente de bonança, optam pelo mais fácil e ficam mais suscetíveis a interesses (os da indústria petrolífera são enormes)", afirma Souza.

Mas não é só. Com grande necessidade de crescimento econômico, para reduzir a miséria histórica, os países emergentes, em especial a China e a Índia, não têm como, a curto prazo, abrir mão do carvão e do petróleo como fontes de abastecimento energético.

Na contramão
No Brasil, a necessidade de diversificação das fontes energéticas não é diferente, a despeito de a matriz nacional ser mais limpa do que a das nações desenvolvidas. Mas, na avaliação do pesquisador da área ambiental Albino Rodrigues Alvarez, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o país já está no limite da capacidade de exploração do potencial de energia hidrelétrica.

"Construir usinas como Belo Monte será cada vez mais inviável econômica e ambientalmente", afirma. Ele destaca que a participação dessas usinas na oferta de energia no Brasil tende a cair nos próximos anos. Os projetos em andamento, que devem entrar em operação até 2017, adicionarão mais 37,6 mil megawatts ao parque atual de 109 mil MW, no qual a participação das hidrelétricas é de 64,4%.

O temor dos especialistas é de que o Brasil caminhe na direção contrária, ao valorizar demais o uso do petróleo depois da descoberta das gigantescas reservas de óleo na camada do pré-sal. "O país precisa tomar cuidado para não sujar a sua matriz energética com o pré-sal", alerta Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a previsão é de investimentos de R$ 1,1 trilhão na produção e distribuição de energia entre 2011 e 2014. Petróleo e gás natural absorverão mais de 80% dos recursos: R$ 875,1 bilhões. Já para fontes alternativas de energia, como a eólica e a de biomassa, estão previstos desembolsos de apenas R$ 9,7 bilhões.

Atentado destrói refinaria no Iraque

A produção da maior refinaria de petróleo do Iraque foi interrompida ontem, depois de um atentado que causou importantes danos em uma de suas unidades, afirmou o vice-diretor do complexo petroleiro Baiji, Abdel Kader Sab. "Vários desconhecidos entraram no estabelecimento às 4h40 locais (22h30 de Brasília, na sexta-feira), mataram dois engenheiros e explodiram uma bomba na unidade norte, que fornece 25% da produção", afirmou. A refinaria de Baiji, situada a 200 km ao norte de Bagdá, produz 150 mil barris por dia, segundo o Ministério do Petróleo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mercado de petróleo no Brasil pode se beneficiar com crise no Oriente Médio.

21/02/2011
Redação - BandNews FM

A política conturbada no Norte de África e no Oriente Médio pode ser positiva para o mercado de petróleo no Brasil. Para o professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília, Creomar Lima Carvalho de Souza, a exploração no pré-sal brasileiro pode se tornar mais interessante com a crise nos principais produtores do mundo.

Nesta segunda-feira, a situação na Líbia fez com que o preço do barril de petróleo no mercado internacional chegasse a 104 dólares, a maior cotação desde setembro de 2008.

Creomar Lima Carvalho de Souza afirma que a estabilidade política do Brasil pode atrair investidores estrangeiros para explorar o pré-sal do país.



O professor de Relações Internacionais do Ibmec, afirma ainda que os atuais aumentos do preço do barril de petróleo são especulativos.

Mas, para Creomar Lima Carvalho de Souza é preciso ficar atento à situação política no Norte da África.





Creomar Lima Carvalho de Souza também descarta o aumento do preço da gasolina e outros derivados de petróleo no Brasil neste primeiro momento.

Mesmo assim, o professor admite a possibilidade de algum reajuste caso a crise se aprofunde no Norte da África e no Oriente Médio.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Uma democracia pós-ideologica e pós-partidária?

As manifestações populares que abalam o mundo árabe trazem à tona algumas reflexões acerca do papel do povo em transformações políticas e permite também a desconstrução de alguns mitos acerca desta região do mundo. Nesta breve reflexão pretende-se entender em que medida tais eventos alteram as percepções que temos acerca da política como ato de manifestação de vontades, bem como, dos preconceitos que são construídos cotidianamente acerca do Oriente Médio.

Inicialmente, acredita-se que é importante caracterizar aqueles grupos que aqui se consideram tradicionais. Os mesmos são: partidos, associações políticas e outros que a eles se assemelhem. No caso egípcio, especificamente, podem ser incluídos inclusive os grupamentos colocados na clandestinidade - como a Irmandade Muçulmana (que vários meios midiáticos citam, mas, poucos compreendem) assim como indivíduos como Mohamed El Baradei (indicado alguns como um dos líderes do movimento da Praça Tahir).

Tendo o Egito como estudo de caso, tem-se a partir da observação dos movimentos populares no Cairo e em outras cidades do país a constatação de dois elementos que se consideram aqui importantes: primeiro, não há nenhuma vinculação partidária ou ideológica vísivel no processo de manifestação e segundo, as lideranças tradicionais mesmo aquelas que faziam oposição ao regime não conseguem ser catalisadoras do processo político em curso - vide a falta de expressividade de indíviduos ou de grupos políticos na situação egípcia atual.

E quais seriam as raízes dessa situação? Em primeira instância aquelas vinculadas a pirâmide de Maslow em seus mais variados níveis. Fome, desemprego e falta de oportunidades para muitos e falta de acesso à informação e de exercício da própria vontade para outros. Neste aspecto especificamente cabe analisar o quão incompetentes são as forças políticas tradicionais não só no Egito, assim como em outras partes do mundo em oferecer soluções para uma juventude que está ansiosa por um mundo de oportunidades que mudam a cada instante.

Não por acaso se forem cruzados dados demográficos e as localidades dos protestos. Será perceptível o fato de que as populações de Egito, Tunísia, Argélia só para ficar nestes casos são característicamente jovens. Tais grupamentos populacionais são observadores das mudanças que o mundo vem passado em dois referenciais distintos: o primeiro que mostra as oportunidades e benesses da globalização e o segundo, mais introspectivo que permite a cada um desses jovens perceber o quanto suas sociedades estão ultrapassadas em aspectos materiais. Entenda-se, o referencial aqui não acredita que o problema do mundo árabe seja a religião. Essa seria uma explicação simplista e carregada de preconceitos que não serão disseminados por este autor.

O fato central desta análise é, que assim como em outros países e regiões cujas elites políticas se perpetuam no poder a base da simples exploração de seu próprio povo e da negação do mais simples elemento a eles, ou seja, oportunidade de sobrevivência digna. Hoje no Oriente Médio se enxerga de maneira clara uma parcela da sociedade que simplesmente chegou ao seu limite de saturação. Em termos alegóricos é dizer que os cidadão cansaram de esmolar na rua enquanto seus chefes políticos desfilam em belos carros.

E neste aspecto especificamente, encontra-se uma explicação bastante plausível no fato de que grande parte das ações de protesto, bem como, os próprios manifestantes tenham construído suas ações via internet. Tais ações surgiram de forma espontânea e não buscaram nenhum tipo de justificador conceitual em algum dos elementos políticos vigentes ou concorrentes daquelas sociedades. Antes disso a simplificação do discurso é de fundamental importância para entender-se o quão desgastadas estão as forças políticas que disputam poder naquela região do mundo. Cabendo portanto a juventude interconectada um papel fundamental no processo revolucionário em marcha.

A atual situação é também fruto do alto grau de ineficiência que marca os processos de gestão e construção de políticas públicas dos casos ora vistos. Contudo, não se pode deixar de mensurar o fato de que o alerta cabe não só aos donos do poder no Oriente Médio, mas, também a outros grupos políticos mundo afora. Quando o sistema impede as pessoas de se expressarem e de terem suas expectativas e sonhos minimamente realizados o povo acaba encontrando formas de abalar ou quem sabe alterar as estruturas vigentes.

Respondendo a pergunta do título, não é possível afirmar se os eventos resultarão na construção de uma democracia ou assemelhado na região. Contudo, pode-se crer que em certa medida ocorre um movimento novo que transcende questões ideológicas postas à direita ou à esquerda. E que quanto mais lentas forem as reações dos grupos políticos tradicionais envolvidos, mais profundas tendem as ser as mudanças resultantes. A janela de oportunidade que se apresenta será ocupada por algum grupo, a questão a ser respondida é se esse agrupamento será partidário ou se estará enquadrado em uma nova sintonia como a exposta pelos manifestantes que abalam o Oriente Médio hoje.